!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> Panteras Rosa

sexta-feira, setembro 19, 2008

Igualdade no acesso ao casamento civil: uma oportunidade contra a discriminação

IGUALDADE NO ACESSO AO CASAMENTO CIVIL
UMA OPORTUNIDADE CONTRA A DISCRIMINAÇÃO

Por iniciativa do Bloco de Esquerda no próximo dia 10 Outubro, a Assembleia da República discutirá a alteração do artigo 1577 do Código Civil de forma a alargar a possibilidade do casamento civil a pessoas do mesmo sexo. 

Acompanhando a discussão à volta do tema existente na sociedade, o Parlamento tem agora uma oportunidade para legislar no sentido da efectiva laicização do Estado e do combate à discriminação em função do sexo atribuído à nascença ou do sexo das pessoas que amam.

Mesmo considerando as concepções de família suportadas pelo actual Código Civil, muitas vezes desajustadas da realidade e certamente oriundas de uma ideologia dominante que confere ao Estado poderes para atribuir ou retirar direitos e deveres perante a formalização das relações amorosas, entendemos que o combate à discriminação das famílias constituídas por pessoas do mesmo sexo também passa por esta igualdade formal. Embora estes projectos de lei mantenham a discriminação de modelos familiares não monogâmicos e não coabitacionais a sua aprovação pelo Parlamento seria um passo importante para todos os e todas as cidadã(o)s individualmente e para a sociedade no seu conjunto.

Mas a homofobia e a discriminação só serão eficazmente combatidas quando

- a liberdade de constituição e organização das famílias deixar de ser atacada por leis senis e iníquas, que legitimam e alimentam preconceitos e discriminações;

- o Estado e as leis que regulam a vida em sociedade estiverem centradas nos direitos e deveres dos indivíduos e não na prescrição de um qualquer modelo familiar idealizado;

- a realidade múltipla das relações amorosas puder ser encarada como um factor estrito da vida privada, livremente regulado e acordado pelas pessoas que comungam a vida familiar;

- as formas da sua celebração simbólica forem uma opção dos intervenientes independente da ingerência do Estado;

- afectos, sexualidades, procriação, parentalidade, coabitação e moralidade deixarem de ser confundidos uns com os outros;

- o núcleo familiar doméstico deixar de ser considerado a unidade basilar de uma sociedade hierarquizada e desigual, herdeira e fomentadora de uma mentalidade sexista e justificada por um pretenso biologismo, ele próprio decorrente de uma leitura ideologicamente deformada da "natureza".

A homofobia e a discriminação violentam diariamente muitas crianças que vivem em famílias fora da regra heterossexual e monogâmica. Violentam particularmente as mulheres que têm filhos sozinhas ou que ficaram sozinhas depois de terem os filhos. A discussão da possibilidade de adopção por parte de casais homossexuais é só mais um sintoma absurdo de uma classe política atrasada (que se desculpa com a "sociedade atrasada" mas que atrasa o progresso social), reflectida num quadro legal que recusa reconhecer a realidade social. Porque na realidade estas famílias existem, muitas vezes com crianças que nascem e vivem fora da lei. É por isso absurdo que casais do mesmo sexo não possam adoptar. Como se a orientação sexual dos e das possíveis adoptantes pudesse ser determinante para o bem-estar e interesse da criança a adoptar...!

Insuportável o discurso da homofobia que transforma homossexuais em cidadãos de segunda categoria e com direitos limitados. Mas igualmente insuportável o discurso desresponsabilizante sobre a táctica e o momento certo para fazer o que está certo.

O Partido Socialista prepara-se para votar contra estes projectos de lei com o argumento de que o assunto não foi tratado no seu programa eleitoral. O que está certo e o que está errado, o justo e o injusto, as convicções de muitos dos e das deputadas socialistas não parecem incomodar a maioria política que nos governa. O tema em si parece irrelevante para a actual direcção do PS e só por isso não foi contemplado no seu programa eleitoral.

Mas irrelevante pode vir a tornar-se este PS quando o que disser e fizer no Parlamento não tiver nada que ver com a realidade do país e com todas as pessoas que consideram a política um instrumento para um mundo melhor. 

Com espanto vamos sabendo que o mundo poderá mesmo estar do avesso, quando é a direita populista da Dra. Ferreira Leite – aquela que confunde o casamento com a procriação – e o PS do Eng. Sócrates a impor o chumbo dos projectos de igualdade no acesso ao casamento e o chicote da disciplina de voto aos e às deputadas destes partidos. 


As Panteras Rosa – Frente de Combate à LesBiGayTransfobia, apelam, pois, aos e às deputadas que votem favoravelmente os diplomas em causa. 

Lisboa, 18 de Setembro 2008

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quinta-feira, abril 24, 2008

BE anuncia campanha LGBT nacional e iniciativas parlamentares

A 22 de Maio, o Bloco de Esquerda (BE) apresentou à imprensa e às associações lgbt portuguesas, a abertura e realização, até Junho, de umas Jornadas "Sem medos Contra a Homofobia", numa iniciativa que contou com a presença da apresentadora de televisão Solange F., do deputado José Soeiro, e de Francisco Louçã.
As Jornadas do BE sobre a temática LGBT vão percorrer vários distritos do país e cuminarão, em Junho, com a realização de um Fórum Público no qual o partido pretende juntar "os universos activista, associativo, académico, as pessoas, o movimento..." para uma reflexão sobre o combate à discriminação da população LGBT. Até à conclusão destas suas jornadas, o BE pretende desenvolver e apresentar mais propostas legais nesta área, a acrescentar às que desenvolveu noutros anos mas que ainda não tiveram acesso ao plenário da Assembleia da República, como a do casamento civil ou a do fim da discriminação no acesso à adopção de crianças.
O BE apresentou já, porém, nesta ocasião, três projectos de recomendação ao governo para legislar instituindo o dia nacional contra a homofobia (associando à data medidas e recursos para a prevenção da discriminação), e respondendo a 2 reivindicações antigas do movimento LGBT: um conjunto de boas práticas para as forças de segurança no tratamento de crimes de ódio, e o combate à discriminação nos serviços de recolha de sangue.
Intervenções de activistas e membros de associações, chamaram a atenção para questões como a do isolamento das pessoas LGBT fora dos grande centros urbanos, ou a necessidade de legislar sobre a identidade de género.
Em sequência, o deputado José Soeiro reafirmou que o Bloco de Esquerda irá avançar com o agendamento, ainda nesta legislatura, do seu projecto-Lei consagrando o alargamento do direito ao casamento civil a pessoas do mesmo sexo. Afirmou também que, na sequência das audiências parlamentares para as quais o BE manteve recentemente com as associações lgbt, e em particular uma audiência sobre o tema transsexual e transgénero, o seu grupo parlamentar se encontra a trabalhar o tema da protecção do direito à identidade de género, sem no entanto prever prazos para apresentação de propostas concreta sobre este tema, ou especificar se ele será concretizado entre as propostas a apresentar durante esta campanha pública.

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segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Trans no Parlamento

No segundo aniversário do assassinato de Gisberta, o Bloco de Esquerda promoveu uma audição na Assembleia da República sobre Transsexualidade. Presentes estiveram activistas das Panteras, Médicos Pela Escolha, Opus Gay e activistas trans independentes. O deputado Sosé Soeiro iniciou a reunião dando a palavra aos e às activistas trans presentes na sala e que referiram diversos casos de discriminação.
A dificuldade e morosidade para mudança de nome nos documentos de identificação e no registo, diagnósticos médicos demorados muito além do aceitável e a falta de uma lei que regule as questões de identidade de género foram, talvez, as questões principais referidas.
A intervenção das Panteras assim como a de uma activista trans francesa que comentou a situação dos trans em França e na Bélgica, despoletou a questão da patologização da transsexualidade e do diagnóstico psiquiátrico como elemento fundamental para as pessoas terem acesso ao processo de mudança de sexo. Debate acesso até pela presença de dois médicos da equipa do Hospital Santa Maria (nesta audição a convite da Opus) que defenderam a necessidade desse diagnóstico e a classificação de patologia para os e as trans. Por outro lado, algumas das activistas presentes, não aceitando a afirmação de que os trans são doentes mentais, reconhecem a necessidade deste diagnóstico médico até pela oportunidade de tratamento no serviço nacional de saúde que ele implica.

Como já sabemos, um debate urgente a ser travado e definidor para o futuro das pessoas transsexuais e trangéneros em Portugal. Para já, esta foi a primeira vez que trans entraram na Assembleia da República pela porta principal e de cara levantada. E não será a última!
O Bloco de Esquerda colocou na sua página web um vídeo com excertos de algumas das intervenções, que reproduzimos pelo interesse do seu conteúdo:

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sexta-feira, outubro 13, 2006

Ser ou não ser Fórum Social Português...

...eis uma boa questão. COMUNICADO PANTERAS ROSA Aqui fica a colecção de cartazes - aparentemente incómodos - que as Panteras Rosa espalharam pelo centro da cidade de Almada e pelos espaços do Fórum Social Português 2006, que se realizou este fim de semana. Durante o dia de sábado, grupo de pessoas que justificavam abusivamente a sua acção em nome da "organização" (da qual faziam parte entidades nossas parceiras que condenaram o acto de censura), arrancaram metodicamente os mesmos cartazes tanto de espaços do FSP como nas ruas de Almada, sem por isso terem conseguido torná-los invisíveis ou menos notados. O Movimento Democrático de Mulheres, o primeiro a deitar as mãos à parede, foi o único a assumir o que estava a fazer, mas nem por isso explicou a sua atitude quando confrontado - aparentemente, vaga formulação, os nossos cartazes eram "insultuosos" para as mulheres (por compararem mulheres cis e trans e sugerirem que a luta trans é parte da luta feminista)?!
Registe-se, porém, com surpresa e ironia, que, tal como nós, o MDM não deixa por mãos alheias o seu rumo e também valoriza a acção directa como uma forma vantajosa de intervenção. A malta encontra-se na campanha pelo sim no referendo do aborto. Ouvimos todo o tipo de argumentação da parte de outras pessoas com cartão ou conversa de "organização" mas não soubemos, na verdade, de nenhuma outra entidade que assumisse o acto. Foi-nos dito que estávamos a promover-nos "à boleia dos outros" porque não tínhamos "aproveitado a oportunidade de termos oficialmente uma banca no Fórum".
Dizem-nos que as paredes de Almada não eram nossas - como era o dito, "paredes brancas, povo silencioso"? Que o nosso movimento não estava inscrito no Fórum - assim o decidimos, mas nem por isso deixámos de participar enquanto colectivo ou de ser co-promotores de uma das iniciativas auto-organizadas - como se um formalismo burocrata justificasse uma censura (se é pelo dinheiro, a malta paga), e como se não pudéssemos estar inscritos individualmente e, no entanto, agir e questionar. Ou fazer da rua a nossa "banca".
Como se explica o impacto exagerado que estes cartazes e a nossa acção directa tiveram em tantos participantes deste fórum? Como justificam as Panteras Rosa o grau de questionamento e provocação - não é ela uma forma de comunicação? - destes materiais relativamente ao próprio evento e ao papel dos movimentos sociais? É que nesta visão democrática, questionar o fórum é ser-lhe hostil, fugir ao esquema de estar calado perante uma conferência de oradores e praticar formas imaginativas de intervenção como a acção directa é proibido. 
Como se explica que um fórum que nasceu como processo aberto ao conjunto dos movimentos sociais se torne num evento cheio de pesos formais e pareça ter uma direcção política que até assume que determinados movimentos não podem exercer no mesmo a sua liberdade de expressão? Como se explica a degradação de um evento que perdeu em 3 anos a maioria dos colectivos e movimentos que nele participavam (incluíndo a maioria dos colectivos LGBT, que desta vez se absteve de estar, com poucas excepções) , que perdeu a sua auto-sustentabilidade financeira e a sua transparência organizativa, e que chega a 2006 como um 'flop' pouco participado, colonizado pelo aparelhismo partidário e no qual apenas restam alguns movimentos mais empenhados que - como nós - ainda vêm interesse na rara mas limitada oportunidade de poderem encontrar-se para debater a sua intervenção e procurar pontos de convergência?
Culpa nossa, e de todos os movimentos que deixaram de se envolver na organização do Fórum porque se sentiam desgastados e deslocados perante plenários intermináveis de disputa partidária estéril numa verdadeira guerra de posições à volta de cada iniciativa? Culpa de quem abandonou o esforço prático e político de construcção do evento? Também, mas não fundamentalmente, e não apreciamos especialmente os actos de contrição nem eles são particularmente úteis uni-direccionalmente ou sem alternativas novas que os complementem.
Em 2003, o movimento LGBT participou em peso no primeiro Fórum Social Português, evento em que se quebraram muitas das barreiras que existiam entre as associações lgbt e os restantes movimentos sociais - sindicatos, ambientalistas, associações de imigrantes, culturais, de mulheres, de deficientes, e muitas outras - que passaram em muitos casos a considerar a problemática lgbt nas suas intervenções específicas, e a contar com o movimento lgbt como parceiro. Para muit@s activistas lgbt, o fórum foi também uma oportunidade de abertura e ligação a outras causas e lutas enriquecedoras da sua intervenção e alargadoras da nossa consciência política.
2003 foi uma oportunidade rara para entendermos como se interligam e reforçam mutuamente as várias problemáticas e opressões, e compreender a base comum e sistémica das mesmas. O fórum foi muito importante para os vários movimentos que nele se cruzaram, gerador de dinâmicas novas, parte das quais sobrevivem hoje graças à iniciativa individual de activistas e colectivos, ou mesmo por afinidade natural entre causas e movimentos que se deram a conhecer mutuamente. O fórum foi um pequeno vislumbre da força acrescida que os movimentos poderiam ter - muito mais do que apesar de tudo já vão tendo - para a transformação social em Portugal, se funcionassem com um mínimo de articulação entre si. 
 Mas nada de ilusões: no quadro da fraqueza do associativismo nacional, as dinâmicas positivas do evento em 2003 - e a própria realização do fórum - só foram permitidas por um equilíbrio relativo entre correntes partidárias que ali estavam presentes (PCP, BE, renovadores...), evitando conflitos de maior e dando espaço aos movimentos sociais para debaterem uma agenda de lutas plural e sem hierarquias que deu origem a convergências inéditas, como o envolvimento generalizado dos movimentos nas grandes manifestações contra a guerra ou, no nosso caso, as participações variadas (nomeadamente da CGTP) na marcha do orgulho desse mesmo ano e o apoio público do conjunto das associações LGBT à greve geral convocada pela central sindical, baseado numa profunda reflexão sobre a relação entre as discriminações no mundo do trabalho e a degradação geral das condições laborais.
Se a dinâmica de 2003 foi positiva - e não teria sido possível sem envolvimento partidário - o facto de um processo destinado ao reforço e florescimento dos movimentos sociais ser assente num equilíbrio partidário era já de si mau sinal, como se veio a comprovar: a realização do fórum em 2004 foi impedida por negociação entre forças partidárias, sendo o processo interrompido contra a vontade da maioria dos movimentos (de forma que só agora se volta a realizar um fórum e houve entretanto dois anos de vazio, àparte um discreto mini-evento em Évora em 2005), e assim se impôs uma visão do fórum social não como um processo de interligação permanente entre os diferentes movimentos sociais, feito da multiplicidade das várias agendas, mas sim como um evento anual que só tem valor nos 3 dias em que ocorre e em que as agendas servem uma visão hierarquizada das lutas (é fácil imaginar em que grau fica a importância de lutas como a lgbt ou a das mulheres).
A acrescer à tentativa predatória do PCP sobre o Fórum - um processo que na realidade pareceu não ter desejado, a não ser na forma arrumadinha de evento, ritual ocasional - há ainda um paternalismo comum nas forças partidárias no sentido de pensar o movimento social em Portugal como um deserto tal, que de alguma forma estas terão que se lhe substituir e dar-lhe rumo. Um ciclo vicioso: os movimentos são frágeis, mas a sua menorização, não-discursiva mas prática - reforça essa mesma fragilidade. Não, os activistas não se esgotam nos partidos. Não, nem tod@s são potenciais aderentes dos partidos. Não, não falta muita gente interessante a fazer trabalho valioso por movimento social apesar do contexto amorfista.
No entanto, ao contrário de outros movimentos que partilham connosco um grande descontentamento com o rumo do FSP, não vemos o problema do Fórum como uma disputa "dos maus dos partidos contra os bons dos movimentos", uma análise infantil e pouco útil que apaga o activismo de muit@s militantes partidári@s nos movimentos, ou como situação que se resolva proibindo a presença formal dos partidos políticos neste processo.
Os partidos são organizações complexas e até diversas, como os movimentos. Há que distinguir atitudes, e não partidos. Há que distinguir partidos e movimentos mas é quanto ao papel de uns e outros. E são os movimentos, na sua autonomia e independência, para lá, não das ideias próprias, mas da filiação partidária (ou inexistência dela) de quem os constrói, quem tem que assumir o papel de dinamização do processo do FSP, e portanto a decisão colectiva sobre o seu rumo, a direcção de um processo sem direcções. Ora aqui está a chave da questão. O movimento social aprender a respirar sem máquina, assumir que respira, descobrir que outros também respiram, e ser deixado respirar.
Como foi bem afirmado na sessão auto-organizada que ajudámos a conceber, a verdade é que os próprios movimentos sociais em Portugal, na sua fraqueza, têm conseguido impulsionar mudanças profundas na sociedade portuguesa, mas parecem ter medo de assumir a sua real importância ou de priorizar um processo político como o que potencialmente teria um Fórum Social Português vivo. Falta de instrumentos, ou de ambição, ou medo de crescer, ou incapacidade de ver que isso não se faz sozinho.
O problema está nos partidos políticos - sem esquecer que parte da vida dos movimentos sociais se deve precisamente à intervenção honesta e não-predatória de muitos activistas partidários de todas as correntes à esquerda -, mas está igualmente em como se faz movimento social: legalistas, institucionalizados, formalistas, dependentes, hierarquizados, aparelhistas, burocratizados, com a mania das grandezas, com protagonismos e interesses pessoais à mistura, falhos de politização, de enquadramento geral das próprias causas, carentes de ideologia política (não confundir com partidária) coerente com as lutas que assumimos, elitistas, assim vamos sendo.
E dizemos "vamos", porque não nos excluímos destas contradições nem somos um movimento unânime com uma coesão tal que nos permita estar imunes a esta mentalidade e às dificuldades em ultrapassá-la. O medo de ousar é regra, tal como a incapacidade de conceber a transversalidade das transformações sociais necessárias ao sucesso das causas que os próprios movimentos defendem. Muita inconsequência, portanto, tal como falta de eficácia e de capacidade de envolvimento de massas, mesmo da parte de activistas e movimentos sociais que se dedicam com muito valor e bons resultados às várias lutas. Ninguém está imune ao conformismo à portuguesa, mas todos podemos pensá-lo e tentar mudar as regras formais e informais estabelecidas.
As Panteras Rosa, nas suas limitações, tentam criticar, criticar-se, e construir novas formas de fazer intervenção política e movimento social. Ora, um processo como o FSP só valerá a pena se fôr um espaço e um processo dos movimentos, menos formal e mais aberto, menos coloquial e mais subersivo, menos quadrado e mais aberto à imaginação. Se proporcionar novas redes de activismos, transversais às temáticas e aos movimentos, e novos pólos de consciencialização e intervenção social. Se lhe estiver atribuída pelo menos parte da ambição de transformar as relações de forças que estruturam a sociedade e vencer o clássico défice de participação cidadã em Portugal.
Para resistir eficazmente - e simultaneamente em cada uma das frentes - à lógica imparável da globalização capitalista que hoje reforça - sem contestação à altura ou criação de alternativas credíveis - o conjunto dos problemas mundiais que os movimentos sociais tentam enfrentar isoladamente na caixinha de cada temática. Um debate que temos mantido com os nossos parceiros no interior do próprio movimento LGBT, afirmando que a reivindicação por direitos iguais é necessária mas insuficiente num contexto de recuo generalizado dos direitos sociais e da cidadania: as Panteras Rosa não lutam por integrar os homossexuais na sociedade que existe, porque ela é estruturalmente segregadora. Queremos sim abalar os fundamentos de uma sociedade intrinsecamente heterossexista.
Destruir as bases da discriminação, e isso não se faz lutando isoladamente contra a discriminação d@s LGBT ou pelos seus direitos, sem olhar para opressões e problemáticas que a montante e jusante se interligam com as discriminações de género ou pela orientação sexual. No fundo, a generalidade das outras temáticas assumidas no FSP. Às portas de uma reunião de balanço do FSP 2006, as Panteras Rosa aguardam com expectativa - e muito respeito pelos movimentos que temos por parceiros e comparecerão- uma argumentação convincente no sentido da nossa presença - será bem-vinda, mesmo quando nos exprimimos livremente? - e consubstanciam o seu balanço do evento numa pilha de cartazes arrancados às mãos de quem tão democraticamente os tentou apagar do Fórum Social - continuará a valer a pena?
Questão tão dramática quanto deve ser alargada a uma reflexão necessária sobre o próprio movimento internacional por uma globalização alternativa, o surgimento dos próprios Fóruns, o movimento que eles geraram em todo o mundo, o seu nascimento em Porto Alegre, as referências fortes que se perderam até aos nossos dias (PT, Lula...), em que uma parte substancial desse movimento existente à volta dos Fóruns e do enorme capital de esperança que provocou, se rendeu ao pragmatismo dos poderes e se instalou objectivamento do outro lado das políticas económicas, sociais, da guerra e da paz. Por cá, o FSP está refém do controlo partidário do PCP, está dependente de estruturas de movimentos sociais frágeis e pouco dinâmicas, e está também órfão das referências de luta contra a globalização capitalista que alimentaram os primeiros fóruns. 
 Contra uma visão infantilizada e paternalista dos movimentos sociais, e também por uma auto-reflexão dos movimentos sobre as suas próprias limitações políticas e práticas, as Panteras Rosa estão disponíveis para pensar e participar em todas as iniciativas inter-movimentos que construam o fórum social quotidianamente como processo permanente. E também as que pretendam devolver aos movimentos sociais as dinâmicas e objectivos originais do FSP, com evento ou sem evento, no evento ou noutros eventos. 
 Consideramos que estas dinâmicas dependem exclusivamente do movimento social. Não dependem de nenhuma estrutura ou acontecimento semi-anual (FSP ou outra). Não dependem de nenhuma iniciativa mais ou menos financeiramente auto-sustentável, mas apenas da vontade e da prática quotidiana de nos procurarmos e trabalharmos em conjunto. Vontade para a qual a "estrutura" FSP está apenas como um dos espaços possíveis de exercício. Saiba a mesma estrutura continuar a sê-lo, porque outro objectivo não deveria ter, e sem ele perderá sentido. Saibamos nós, modestos activistas de modestos movimentos sociais, ultrapassar-mo-nos. Assim ruge a pantera sobre o fim de semana que passou. Desabe agora sobre o nosso rugido a vossa indignação. Ou não?




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quarta-feira, maio 24, 2006

Obrigado PS...

... por mais uma Lei de discriminação explícita. ALguém ainda está à espera que este PS aceite e aprove o casamento homo? (da direita já sabíamos o que esperar).

"...apesar de o PCP e o BE terem apresentado ontem, dia da votação na especialidade, propostas de alteração no sentido de incluir as mulheres sós inférteis nos beneficiários da procriação medicamente assistida (PMA), a lei aprovada na especialidade e que será submetida a votação no plenário só prevê acesso a casais heterossexuais, casados ou em união de facto."

Mais pormenores no
Renas

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quarta-feira, fevereiro 15, 2006

A JS e o casamento. As palavras e o vento.

Desde o dia em que foi apresentado numa Conservatória de Lisboa o requerimento para o casamento civil de Teresa e Helena, que a juventude do partido do governo não tem descanso. É que primeiro foi o Bloco de Esquerda e apresentar um projecto-lei, ultrapassando a jota nesta espécie de corrida institucional à secretaria do presidente da Assembleia da República. Depois foi o porta-voz do PS que voltou a garantir que este não era um tema prioritário, assim como o líder parlamentar que voltou a falar de aborto para descartar a hipótese do agendamento do projecto do casamento. Mas o pior mesmo foi a maioria dos deputados da JS se terem virado contra o seu presidente: é que depois de tantos ameaços e de tanto estardalhaço na comunicação social, afinal os jotinhas não estavam bem a favor, nem dos timings e, provavelmente, também não dos conteúdos do anunciado projecto.
Hoje, com pompa e circunstância na imprensa do dia temos a apresentação do tão anunciado projecto da JS – afinal um anteprojecto para cumprir a função de discussão interna dentro do PS. Já sabemos que a sua discussão parlamentar não será este ano no que depender do grupo parlamentar do PS, com os jotas incluídos. Que a competência com que estão a resolver a questão do aborto desde 1998 só pode querer dizer que a espera poderá vir a ser longa.
Mas o pior é mesmo a JS ao mesmo tempo que vaticina que a “sociedade está preparada” para a discussão do casamento, afastar liminarmente a hipótese da adopção por casais homossexuais. Teoricamente para não afugentar a caça, concentrar forças na batalha do casamento, descartando a polémica da adopção para ocasiões futuras. Mas de caminho a maioria dos seus deputados lá vão dizendo que a adopção nem pensar, ou na versão mais soft do seu presidente minoritário, que a sociedade não estará ainda preparada para avançar neste sentido.
O que perturba é que o protagonismo que tem esta organização de deputados jovens só é explicável por serem justamente deputados do partido do governo que delega nos mais novos os temas ditos “fracturantes”, para nada se resolver, nem nada ser levado demasiado a sério. O que chateia de morte é a visão da acção política como instrumento de gestão de poderes e influências e nunca como forma de enfrentar problemas e mudar realidades. Para isso, não são precisos cálculos dos timings ou das conveniências impossíveis com as maiorias (no partido, na sociedade…), basta a convicção e ir à luta de cara levantada. Tudo o que falta à JS!

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sexta-feira, janeiro 27, 2006

Urgência e insuficiência dos direitos LGBT

Está na ordem do dia o debate sobre a igualdade das famílias constituídas por pessoas do mesmo sexo. O alargamento do direito ao matrimónio civil é hoje uma “bandeira” central das reivindicações de várias associações LGBT (petição promovida pela ILGA-Portugal em http://www.ilga-portugal.pt/noticias/20050917.htm). O casamento e a adopção, temas com um simbolismo poderoso que desmonta os arquétipos da família tradicional, são claramente os maiores “fantasmas” de quem resiste à ideia da igualdade de direitos sem distinção de orientação sexual. Mesmo à esquerda há quem lhes torça o nariz. Não só representam o último reduto de um ciclo de alterações legais destinadas a erradicar a homofobia, como revelam a necessidade de ir além da mera “igualdade de direitos”, em busca de uma transformação social mais profunda.
As conquistas legais do movimento LGBT (Lésbico, Gay, Bi e Trans) português têm um longo caminho: descriminalização da homossexualidade em 1982; Revogação das normas impeditórias do acesso às forças armadas e policiais em 1999; Eliminação da homossexualidade da Tabela Nacional de Deficiências e aprovação da Lei de Uniões de Facto em 2001; o questionar recente – via processos por pedofilia - do artº 175 do Código Penal, que distinguia os crimes “homossexuais” com menores, considerados mais graves que o abuso heterossexual sobre menores.
Após anos de disputa política e legal, o movimento LGBT português viu cair em anos recentes quase todas as discriminações explícitas em função da orientação sexual que as leis portuguesas mantinham, reminiscências claras da legislação fascista que o 25 de Abril não conseguiu superar. Estes avanços legais foram consubstanciados na alteração constitucional que incluiu a orientação sexual no artigo 13º, como critério pelo qual também não pode haver discriminação.
Um princípio muito longe de ser concretizado na realidade social - embora esta tenha evoluído com alguma mediatização (infelizmente maioritariamente estereotipada) da homossexualidade e da homofobia - e nas práticas do Estado, como já vimos. Mas não tão longe assim de ser concretizado do ponto de vista formal, legislativo. Na verdade, a Família é o último grande reduto da homofobia legal, não apenas em Portugal. Em muitos países, desde logo em Espanha, é no alargamento do conceito de família que a legislação tem evoluído, abrindo-se às novas realidades familiares – famílias monoparentais, famílias reconstruídas ou famílias homossexuais, eliminando discriminações em função da orientação sexual em matérias como a homoparentalidade, a adopção, uniões de facto e matrimónio civil.
Por detrás destas lutas, a convicção de que a igualdade, neste caso legal, não pode ser pela metade. Ou acreditamos claramente que todos os seres humanos nascem “livres e iguais” ou não acreditamos, mesmo que assumamos uma versão homofobia “ligth”, do género “todos somos iguais mas...”. Se somos todos iguais, e se a sexualidade de cada um/a - tal como a etnia e a cor da pele, o género e a identidade de género - não deve distinguir-nos em termos de direitos sociais, então não há lugar para “mas...”.
Reivindicar uma cidadania plena para tod@s sem uma vigilância moral pendendo sobre a sexualidade de cada pessoa, é isso que significa “100% direitos iguais”, na lei e na vida.

Reservas morais
Precisamente, a adopção e o casamento, concentram a maior resistência por parte das forças conservadoras, mas colhem igualmente, demasiado frequentemente, um torcer de nariz à esquerda. O verdadeiro pano de fundo destas resistências é a incapacidade do status quo heterossexista em aceitar as relações homossexuais num plano de igualdade com as suas próprias, com a mesma legitimidade, o mesmo valor, o mesmo peso valorativo que as famílias heterossexuais. É insuportável para a heterossexualidade, enquanto orientação sexual que se faz ideologicamente passar por única, modelar e correcta, perder esse estatuto e ver-se confrontada com a existência de outros modelos, outras formas de amar e de viver a sexualidade, ou mesmo com opções de vida que dispensam modelos.
De resto, os preconceitos que se opõem ao reconhecimento das famílias homossexuais são facilmente desmontáveis. Não é possível afirmar-se contra uma discriminação activa das pessoas homossexuais e simultaneamente recusar que estas possam, assim o desejando, formalizar as suas relações e aceder aos mesmos direitos e garantias dos restantes cidadãos. No dia de redacção deste artigo, a imprensa divulga que um casal de lésbicas se prepara para iniciar um processo judicial no sentido de alterar o artigo do Código Civil que reserva o direito ao matrimónio a pessoas de sexo diferente.
Este casal, que enfrentou a discriminação quando tentou alugar casa em conjunto, bem como num processo relativo à guarda de crianças de um casamento anterior - casos frequentes - ilustra bem que não está apenas em causa uma reivindicação simbólica, mas uma necessidade de legitimação social de famílias que hoje sofrem as consequências muito práticas e materiais da homofobia nas suas vidas. Há parceiros impedidos de se visitar no hospital por não serem considerados familiares, há pessoas que perdem casa e os seus próprios bens quando um dos parceiros morre e a respectiva família se assenhora da situação... a perda de direitos e garantias é real, e assim funciona a discriminação. Por isso, este casal quer constituir e ver reconhecida uma “sociedade familiar que integre todos os seus bens, e (...) celebrar um compromisso mútuo de respeito, fidelidade, coabitação, cooperação e assistência”.

“Fantasmas” heterossexuais
O tema da adopção, contrariamente ao do casamento, não tem sido uma das reivindicações centrais do movimento LGBT, por consciência da dificuldade particular deste debate, embora também aqui este venha a defender a igualdade de direitos. É o assunto que concentra maiores reservas morais, mesmo à esquerda, um “mas...” de serviço quando se debatem os direitos dos homossexuais, mas tem sido sobretudo a imprensa, muito mais do que o movimento LGBT em si, a insistir no “fantasma” da adopção, mesmo quando o assunto não é parte dos eventos em curso. Porque é um fantasma real na cabeça de muitas pessoas, seja por via da associação abusiva entre homossexualidade e pedofilia, seja, sobretudo, pela legitimação que conferiria a novos de modelos de vida familiar que colidem com a excluvisidade reclamada pelo modelo tradicional.
Mais uma vez, o preconceito não resiste à análise. É curiosa a expressão utilizada pela presidente da Câmara de Salvaterra de Magos, eleita com a sigla do Bloco de Esquerda, em declarações ao jornal Expresso em Novembro de 2005, que sobre a possibilidade de adopção por casais homossexuais diz ter “alguma dificuldade em perceber como a criança se vai desenvolver emocionalmente com pais do mesmo sexo”. Note-se que o Bloco de Esquerda é o único partido com uma proposta que acaba com a discriminação no campo da adopção, explicitamente vedada a homossexuais na actual Lei.
Eu até poderia entrar no debate da adopção se não pensasse que ele está viciado. Argumentaria que o modelo tradicional de família - um dos mais importantes meios sociais de reprodução do sistema de géneros que origina o sexismo e a homofobia - continua ideologicamente forte, embora enfraquecido pela realidade social. Como se desenvolvem emocionalmente as crianças criadas apenas pela mãe ou apenas pelo pai, ou pela mãe e uma avó, ou pelas tias? Não serão estas pessoas referências do mesmo sexo? Qual é o medo existente, o de que a criança seja exposta a outra formas de vivência? Então, mas não são elas também legítimas? E em que é que elas poderiam influenciar a futura orientação sexual da criança, se sabemos que esta será hetero ou homo, o que tiver que ser, e que nada nem ninguém pode alterar esse desejo e essa identidade? E qual é o problema se a pessoa vier a ser homossexual, afinal já é um problema a homossexualidade?
Não quero, porém, ir por aí. Penso que a melhor desmontagem do preconceito face à adopção homossexual se faz pela constatação de que a família (heterossexual) foi a “prisão” em que durante centenas de anos, os homossexuais reprimiram a sua identidade sexual para irem vivendo sem sobressaltos ou perseguição um modelo que lhes era alheio. Nessa prisão, que ao mesmo tempo era uma máscara de “normalidade”, foram casados, fazendo e criando filhos. Será que o que assusta agora é que queiram fazê-los livremente, do lado de cá dessas grades que ainda hoje nos impõem desde pequenos como forma legítima e exclusiva de viver a sexualidade e o amor? Convenhamos que a orientação sexual de um gay ou de uma lésbica não lhe retirou a capacidade reprodutiva. Convençamo-nos de que os gays e as lésbicas já fazem filhos, e estes não são uma cambada de tramatizados. Quem recusa a possibilidade de adopção por casais homossexuais não será coerente sem defender que os filhos biológicos de homossexuais lhes devem ser retirados. Inconcebível? Há, infelizmente, por cá, tribunais que o pensam e praticam, exactamente com os mesmos argumentos que se opõem à possibilidade de adopção, apesar de o Estado Português ter já sido condenado por esse motivo pelo Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (em 2001).

Um passo além: a sociedade sem classes sexuais
O que nos leva à insuficiência da justa reivindicação por “direitos iguais” na Lei. O fim da discriminação nas regulamentações militares significou apenas que as mesmas práticas continuaram, porém mais discretas. A Lei de Uniões de Facto aprovou-se mas ficou por regulamentar: o Estado continua a discriminar e a dar o (mau) exemplo. Mesmo com o avanço que significarão conquistas como o acesso ao casamento, a população LGBT continuará a ser alvo da homofobia e da des-legitimação permanentes. Os avanços legais podem contribuir enormemente para aliviar a pressão de discriminações concretas e sobretudo para mudar a percepção social da homossexualidade, mas, lugar comum, não sustentam por si uma realidade milenária de discriminação baseada em estruturas sociais e políticas que se mantêm de pé.
A comercialização extrema da própria sexualidade no quadro do processo da globalização capitalista abre hoje vias para a integração de parte da comunidade homossexual, conforme o poder de compra ou a aproximação ou distanciação relativamente aos estereótipos. Enquanto possamos consumir, e não incomodemos a ordem estabelecida, a integração é permitida. Dentro de modelos bem definidos e com discrição, preferencialmente. Bem-comportados/as. O acesso dos casais do mesmo sexo ao casamento alterará profundamente a concepção de família, mas arrisca também ser um dos mecanismos dessa integração ao, contraditoriamente, “legitimar” socialmente uma relação que continua socialmente discriminada.
Porque os modelos simbólicos se mantêm maioritariamente discriminatórios, porque o modelo heterossexista continua dominante na comunicação, na cultura, até nas relações interpessoais. Continuamos menores, a “ordem estabelecida” não é outra coisa, a norma é heterossexista. É ingénuo pensar que a emancipação dos gays e das lésbicas como cidadãos plenos é compatível com o valor hoje atribuído à heterossexualidade, ou com o modo de vida que lhe está associado. Falar apenas de direitos, e não de transformação e subversão das normas morais, com efeito sobre a vida de todos/as, é desistir de alterar a fonte do preconceito em nome de uma integração de segunda categoria. O movimento LGBT, na verdade, trava um conflito, de poder e legitimidade, entre opressão e emancipação, que só pode resolver-se com a abolição das actuais categorias sexuais e o fim do primado da heterossexualidade. Só então a orientação sexual poderá voltar ao domínio da intimidade de cada um/a.
Qualquer estratégia de reivindicação de direitos iguais, por comparação aos direitos de que usufruem os outros, é, quando isolada, muito limitada numa sociedade e num tempo em que a generalidade das pessoas tem poucos direitos, com tendência a perdê-los. Se a igualdade formal de direitos é, e justamente, um objectivo central do movimento LGBT, o outro terá que ser o combate à homofobia social, não podendo perder-se de vista a sua relação íntima com outras opressões, começando pelo sexismo, cujos esquemas são abalados pela mera existência de gays e de lésbicas que, por via da sua sexualidade, recusam os papéis tradicionais – e não isentos de ideologia de poder e submissão – atribuídos aos homens e às mulheres.
Uma sociedade verdadeiramente democrática não dispensa abolição destas ideologias da dominação, tão fulcrais como o racismo ou as diferenças de classe na engrenagem de dominação que sustentam as injustiças do sistema político e económico. Que o género deixe de ser critério para diferenciação social. Que a orientação sexual deixe de ter relevo para distinguir entre pessoas e se reconheça a falibilidade de todas as categorias que inventamos – heterossexualidade, homossexualidade, bissexualidade -, que não definem a diversidade sexual humana e muito menos a resumem. Que são parte do que somos, mas não dizem quem somos.

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sexta-feira, dezembro 23, 2005

Hasta tu Brutus...

Depois de Cavaco e Jerónimo o porta-voz do PS, Vitalino Canas, veio a público garantir que a equiparação de direitos civis com o casamento entre pessoas do mesmo sexo não é uma prioridade para o partido do governo. Chegando mesmo a duvidar da contradição constitucional entre o artigo 13º e o código civil, Vitalino arremete contra os ventos que tornam o tema um assunto incómodo e incontornável da política nacional. A madurez da sociedade para aceitar o tema, os outros temas (sempre os outros!) que são fundamentais e preocupam os cidaddãos, e "temos tempo para esse debate" - pois Vitalino, desde que não aconteça nunca...
Também já o candidato do PS-que-não-é-do-PS, Manuel Alegre, tinha tranquilamente sacudido a água do capote garantindo que casamentos homossexuais não são com ele. É natural, o poeta só utiliza a sua voz poderosa com o seu próprio umbigo.
E infelizmente para quem escreve estas linhas, o líder parlamentar do Bloco de Esquerda alinhou neste coro de disparates que colocam como condição para uma alteração legislativa, um debate aprofundado que ninguém dos círculos do poder quer realizar. O Bloco, garantiu Luís Fazenda, não vai avançar para já com nenhum projecto. Felizmente para muitas mulheres agredidas que o Bloco não aguardou por essse tal "debate alargado" para propôr e ganhar na Assembleia da República a violência doméstica como crime público, ou a regulamentação das medicinasi tradicionais, ou o fim da criminalização do consumo de drogas, ou... todas as suas propostas legislativas? Mas com paneleiros, fufas e o sacramento do casamento o assunto é diferente: teremos todos que procurar consensos impossíveis para depois poder mudar a lei que entretanto a Constituição já tornou absurda. Podia ao menos Luís Fazenda ter tido atenção ao que o candidato presidencial apoiado pelo BE anda a dizer sobre o assunto, não admitindo a hierarquização de prioridades nos direitos sociais, muito menos na violação de direitos civis que aqui está em causa. É que para o que Fazenda anda a dizer já temos o Jerónimo. Esperemos que o Bloco consiga ser menos disciplinado que o PC e alguém consiga contradizer o seu líder parlamentar. E, já agora, será que ninguém ainda reparou que a discussão pública já está lançada? Há até uma petição a circular, seminários e debates que vão sendo promovidos, opiniões que cruzam argumentos e todo um movimento social empenhado na transformação da lei e, claro está, no debate que tem acompanhado este momento. Para todos os que se refugiam nas prioridades ou na grande necessidade de debater, esssa é só a forma de se furtarem à discussão e às suas responsabilidades legislativas. Do Bloco esperava muito mais do que isso.

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quarta-feira, novembro 16, 2005

A Anita não entende

Há sábados em que mais valia não ter saído da cama. Foi o caso do último, em que a leitura do "Expresso" me estragou o dia e ainda vai prejudicando a semana. Mais concretamente, em inquérito respondido por Ana Cristina Ribeiro, Presidente da Câmara Municipal de Salvaterra de Magos, eleita há dois mandatos sucessivos numa lista do Bloco de Esquerda, a pergunta sobre adopção por casais homossexuais, respondia a senhora que não entende como se pode desenvolver emocionalmente uma criança com dois pais ou mães do mesmo sexo.
Neste instante o pequeno-almoço azeda, o partido que penso representar a esperança de mudança e de modernidade no país, do fim das opressões e das opressõezinhas, da exploração e da discriminação, é aqui representado por esta mulher que diz isto. Para mais sendo ela responsável pela sua única vitória autárquica, começo a pensar que afinal talvez até tenha sido pelo melhor o Bloco não ter ganho a maioria em mais nenhuma câmara do país.
Anita não entende que utiliza os mesmos argumentos que o conservadorismo católico, de João César das Neves aos organizadores das manifs no Parque Eduardo VII; Anita não quer ver que os homossexuais já têm filhos e que estes não são por isso crianças especialmente deprimidas e destruturadas emocionalmente; Anita não quer crer que o argumento conservador, quando se garantiu o direito ao divórcio, poderia ter sido exactamente o mesmo; Anita não acredita, mas os homossexuais, são pais, mães, tias, avós, vizinhas, cunhados, irmãs, primos, amigos, colegas, certamente que alguns até Presidentes de Câmara; Anita acha que não há, mas há lésbicas, gays e até transgénereos no concelho a que preside; Anita acha que em Portugal os touros deveriam poder morrer na arena e eu acho que as touradas é que perturbam emocionalmente as crianças filhas de heteros ou de homos e já agora também os adultos que fazem do sofrimento e morte de um animal um espectáculo para seu divertimento; Anita pode pensar o que quiser e não entender muitas das coisas que se passam no mundo, mas enquanto fôr presidente de câmara terá de fazer um esforço; Anita é uma mulher independente eleita por um partido que tem defendido a igualdade de direitos e a possibilidade de adopção por homossexuais, mas sendo a única Presidente de Câmara desse partido, deveria abster-se de dele divergir na praça pública tão profundamente;
Anita não entende, mas a verdadeira questão é se quer realmente entender.

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sexta-feira, outubro 07, 2005

Carrilho Via Opus Gay


Há poucos dias, António Serzedelo, principal porta-voz da Opus Gay, juntou-se à campanha do Partido Socialista na capital e garantiu a quem o quis ouvir que o Professor Carrilho era o melhor candidato para os gays e as lésbicas da cidade.
Não sendo a primeira vez que Serzedelo toma posição pública ao lado das candidaturas do PS, não deixa de ser um facto relevante por ser protagonizado por quem passa grande parte do tempo a clamar contra o Bloco de Esquerda e a sua suposta influência no associativismo LGBT. Quem não se lembra dos comunicados de imprensa recentes da Opus que “denunciavam” ao mundo os membros simultâneos dessa organização política e de associações de defesa e afirmação dos direitos sexuais? Entre aqueles e aquelas que de facto o eram e todos os outros que não passavam das mais absurdas invenções do dirigente da Opus… Quem não se lembra do António Serzedelo a imaginar-se vitima de uma enorme maquinação em que o Bloco instrumentalizava todos à sua volta, e em que o mundo do associativismo LGBT era a fachada de uma militância política com propósitos inconfessáveis?
Este apoio e a militância de Serzedelo no PS tem o mérito de tornar esta sua obsessão com o Bloco mais clara. Tem ainda a vantagem da acção cívica e da tomada de posição de um dirigente associativo que não se alheia da política nem da realidade da governação sua cidade. Sem complexos nem subterfúgios.
Apenas um pormenor: António resolveu justificar o apoio à candidatura socialista com a promessa de "gabinetes contra as discriminações"e da cedência de um espaço no centro da cidade para a realização do Arraial Pride. Não teria sido preferível ter o candidato Carrilho a fazer essas promessas em vez do dirigente da Opus Gay por ele? Ou será que Carrilho delega em Serzedelo o seu programa para a comunidade LGBT da cidade? Ou poderá ser ainda porque prefere não se comprometer muito com estas promessas, não dizendo o que outros dizem por si? Mas se há aspectos que nos aproximam da Opus Gay é saber que no activismo LGBT é preciso dizer com todas as letras aquilo que se tem para dizer. Sem medo das palavras ou de provocar os léxicos de insulto do reaccionarismo mais primário. Um candidato de esquerda à Câmara de Lisboa precisa de dizer a palavra “homossexual”, “lésbica” ou “transgénero” sem hesitações ou vergonhas. Um candidato socialista à Câmara tem necessariamente de defender as suas propostas, e de cara levantada, caso contrário arriscam-se a ser meras promessas que se esquecem após contados os votos.

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