!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> Panteras Rosa

sexta-feira, dezembro 05, 2008

Sábado 6 • 16h • filmes e festa

Este sábado, dia 6, vem passar a tarde na Karnart !!! (em Lisboa)

Às 16h uma activista da Lambdaistanbul, falar-nos-á um pouco sobre a situação do movimento LGBTQ+ na Turquia e sobre o processo judicial contra a associação.

A seguir teremos 3 documentários curtos sobre LGBTQices na Turquia:
- um sobre Marcha e o processo de ilegalização da Lambdaistanbul,
- outro sobre malta trans em Istambul,
- e um sobre um grupo trans em Ankara e a sua performance teatral.
Os filmes são legendados em inglês.

E depois... FESTA, com música, comes e bebes.
Celebraremos a recente decisão do Supremo Tribunal da Turquia, que anulou a ordem de dissolução da associação Lambdaistanbul.

E a seguir iremos para casa jantar e calçar as pantufas (para @s mais friorent@s)... ou então vamos espalhar a festa para outros lados!

Vem bem agasalhad@, teremos aquecedor mas o espaço é fresquinho... ;-)

Entrada gratuita.

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sexta-feira, maio 16, 2008

CARTA ABERTA À MINISTRA DA SAÚDE

comunicado de imprensa 16 de Maio de 2008
Comemoração do Dia Internacional Contra a Homofobia, 17 de Maio de 2008.

É mais que tempo de acabar com o preconceito na recolha de sangue!

Exma. Sra. Ministra da Saúde, Doutora Ana Maria Teodoro Jorge:
Tendo assumido recentemente a condução do Ministério da Saúde, não queremos deixar de lhe apresentar um caso que, em nossa opinião, se arrasta há demasiado tempo e que configura uma clara e inaceitável atitude discriminatória por parte do Instituto Português de Sangue.

Como será certamente do seu conhecimento, há já vários anos que diversas instituições e personalidades públicas têm denunciado a prática do IPS em excluir os homens que têm sexo com outros homens de potenciais dadores. Houve mesmo um momento, há três anos atrás, em que foi anunciada com pompa e circunstância a revisão do protocolo que justifica tal exclusão. Afinal, a notícia era falsa e nunca foi confirmada pela prática do IPS ou pela vontade, expressa em actos, dos antecessores de V. Exa.

A indignação aumenta por ser um organismo tutelado pelo Estado e directamente pelo Ministério que dirige, que promove atitudes discriminatórias baseadas em conceitos ultrapassados do que são os grupos de risco quando falamos de comportamentos sexuais. Como sabe, Sra. Ministra, outros organismos também tutelados pelo Ministério da Saúde, assim como uma grande maioria dos profissionais na área da prevenção das doenças sexualmente transmissíveis, há já muitos anos que abandonaram esta ideia de que haveria grupos de risco. O que se trata e importa prevenir são os comportamentos de risco e não há comportamentos exclusivos de heterossexuais ou de homossexuais. Aliás, num estudo recentemente divulgado pelo Instituto de Ciências Sociais, conclui-se que uma preocupante taxa de jovens (e não jovens) não utiliza preservativo nas relações sexuais, que os comportamentos de risco estão muito mais generalizados do que seria de prever, mais de duas décadas após o surgimento dos primeiros casos de HIV em todo o mundo.

Há exactamente um ano, as Panteras Rosa dirigiram ao então Ministro da Saúde estas questões. Na sequência desta iniciativa fomos convidados a debater directamente com os responsáveis pelo IPS a sua política para a doação de sangue, e em reunião ficámos a saber que o IPS justifica a sua prática com protocolos internacionais a que está obrigado. Disse-nos ainda o Presidente do IPS que esta exclusão reside unicamente em dados epidemiológicos recolhidos nos EUA. A ausência de estudos que reflectissem a realidade portuguesa foi um dado apontado como limitador de um maior conhecimento e adequação das práticas à realidade.
Há um ano atrás o presidente do IPS aceitou que uma análise ponderada à realidade nacional poderia fazer o IPS inflectir a sua política caso os dados recolhidos para aí apontassem. Deixámos claro, porém, neste contacto com o IPS – posição em que aliás fomos secundados pelo coordenador nacional para o VIH-SIDA e pelas associações Médicos Pela Escolha e Grupo de Acção e Tratamento VIH-SIDA (GAT), que tal decisão não deverá depender de qualquer estudo epidemiológico: nenhum estudo sobre um grupo social, mesmo que conclua que existam diferenças em termos de epidemiologia (e essas são sempre conjunturais e mutáveis ao longo do tempo, exigindo sempre estudos sucedâneos), pode servir para uma exclusão generalista do mesmo grupo social, porque o foco da selecção dos dadores deve estar nos comportamentos e práticas sexuais de risco, e não na orientação sexual das pessoas, ou seja, cada pessoa é um caso.
Hoje sabemos que o sistema de recolha de sangue está próximo da ruptura em notícias que foram públicas há alguns meses, que a quantidade de sangue recolhida é absolutamente insuficiente para as necessidades. Sabemos ainda, por casos tristemente célebres, que a qualidade do sangue não é garantida pelo sistema que temos e que o IPS tanto preza.
Algum conhecimento da realidade dos hábitos sexuais dos portugueses foi revelado pelo estudo dos ICS e nada nem ninguém nos convenceu que a noção de grupos de risco não é um conceito absolutamente ultrapassado pelas práticas científicas.

Um ano depois e a propósito da comemoração, amanhã, dia 17 de Maio, do Dia Internacional Contra a Homofobia, as Panteras Rosa – Frente de Combate à LesBiGayTransfobia, vêm solicitar-lhe uma decisão política que acabe com a prática discriminatória na recolha de dádivas de sangue por parte do IPS e que garantam procedimentos seguros e eficazes na recolha de sangue.

Certos de que a discriminação é inútil para assegurar a qualidade do sangue e de que o preconceito é prejudicial para o funcionamento de um sistema de doação solidária e fundamental para a saúde pública, queremos acreditar que o Ministério que dirige imporá, finalmente, regras claras e responsáveis para a recolha de sangue no nosso país.

Movimento Panteras Rosa – Frente de Combate à LesBiGayTransfobia

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quarta-feira, abril 09, 2008

A repressão da homossexualidade no Estado Novo

“Actos Contra a Natureza” - A repressão social, cultural e policial da homossexualidade no Estado Novo *
Sérgio Vitorino
Outubro 2007
A seis de Abril de 1962, o Tribunal de Execução de Penas de Lisboa determinava as medidas de segurança a aplicar a Júlio Fogaça, dirigente do Partido Comunista Português (PCP) que dois anos antes havia sido detido pela PIDE numa pensão da Nazaré onde se encontrava acompanhado de um homem com quem mantinha uma relação amorosa.
Tendo sido “classificado de “pederasta passivo e habitual” na prática de vícios contra a natureza”, Fogaça é sujeito a um período de detenção seguido de uma “liberdade vigiada” por cinco anos, sob obrigação de fixar residência em Lisboa, dando conhecimento da morada à Polícia Judiciária, mas não podendo ausentar-se sem prévia autorização do Tribunal. É-lhe ainda imposto “dedicar-se ao trabalho honesto com permanência, mas não à prática de quaisquer vícios contra a natureza”, bem como “não acompanhar cadastrados, antigos companheiros de prisão, pederastas ou quaisquer pessoas de conduta duvidosa (...)”.
Não se trata da primeira prisão desde dirigente do PCP. Em 1935 foi preso e deportado para a prisão do Tarrafal (Cabo Verde). Amnistiado, regressa a Portugal em 1940 e participa na reorganização do PCP. É de novo detido em 1942, sendo de novo amnistiado em 45, após nova passagem pelo Tarrafal.
Durante a década de 50, sustenta, a tese do derrube pacífico do regime, mas acabará por sair derrotado da disputa interna contra Álvaro Cunhal pela definição da linha do partido no combate ao regime do Estado Novo. Nessa altura, tinha já sido detido na Nazaré, e só será libertado em 1970.
Mas a sua orientação sexual – e não a sua actividade “subversiva” enquanto comunista - foi desta vez o pretexto. E será utilizada tanto pela PIDE como pelo PCP para traçar a sua sorte. O partido, que no seguimento da derrota da sua linha política, acusada por Cunhal de ser um “desvio de direita”, já havia excluído Fogaça da fuga de um conjunto de dirigentes comunistas do Forte de Caxias, em 1961, expulsa-o pouco tempo depois da organização, igualmente com o pretexto da sua conduta moral e uma acusação de irregularidades relacionadas com fundos. A sua homossexualidade é também sobejamente utilizada pela PIDE, através da divulgação da confissão do seu companheiro de detenção junto dos meios oposicionistas, de forma a denegrir o PCP.

O caso de Júlio Fogaça, apesar da particularidade do uso político que teve, pode ser olhado como uma caricatura da hipocrisia moral do Estado Novo perante a homossexualidade, a sexualidade não-reprodutiva e tudo o que é considerado marginal à “ordem moral” defendida pelo regime ao longo da sua vigência. Desde as campanhas públicas moralizadoras iniciais e criação de legislação repressiva no domínio dos costumes, até à institucionalização de um modelo repressivo e carcerário que recaía sobre um vasto conjunto de “marginalidades e “imoralidades”, mas que penalizava sobretudo a pobreza, o discurso de “regeneração moral” do Estado Novo encontra eco nas defesas morais da própria oposição, como na determinação dos anarco-sindicalistas pela abolição da prostituição no início do século, ou na rejeição da homossexualidade pelos militantes comunistas, que viriam, por exemplo, a fazer dela critério de “saneamento” já no período revolucionário pós-25 de Abril.

“Regeneração moral”
O episódio de Fogaça não é inteiramente original. Outro exemplo de utilização da homossexualidade como arma de arremesso político pode ser retirado do próprio processo político que leva ao golpe militar de 28 de Maio de 1926 e inicia a construção do Estado Novo. Manuel Teixeira Gomes, sétimo Presidente da República (1923-1925, Iª República), e mais tarde opositor de Salazar, viria a afastar-se do cargo, nesse período de conturbada disputa política, com o pretexto oficial de se dedicar exclusivamente à literatura.
Em 1904, o futuro presidente, também escritor profícuo, publicava
Agosto Azul: “(...) Finalmente topamos numa enseada distante com dois escaleres da armada que dois marinheiros nus enchem de areia. São marujos malteses, de pele baça e modelados como Hércules – os mesmos corpos de possantíssimos escravos que as gravuras antigas punham a remar nas galés do Grão Turco. Era placidamente heróico o espectáculo dos seus trigueiros corpos atléticos, que se bronzeavam à sobra lavados nas quentes reverberações da luz (...)”. Ainda hoje fora da historiografia corrente ou das biografias do escritor, fica a referência ao homoerotismo na obra de Manuel Teixeira Gomes, que enaltecia a beleza masculina, por exemplo dos jovens operários, e de este ter figurado entre os pretextos para a perseguição política – e moral – que lhe foi movida enquanto ocupou o cargo máximo da Nação.
Ainda no período da Iª República, em Março de 1923 o Governador Civil de Lisboa faz apreender e manda queimar exemplares de “Decadência” de Judith Teixeira, de “Sodoma Divinizada” de Raúl Leal, e das “Canções” de António Botto, na sequência de um indignado manifesto de estudantes de Lisboa, integralistas radicais e mais tarde – alguns – figuras do Estado Novo, como Pedro Theutónio Pereira, que escreve no jornal “Época” sobre a urgência de uma reacção “pronta e implacável”: “a quem manda nós apontamos hoje a necessidade imperiosa de fazer justiça, porque é preciso que os livreiros honrados expulsem das suas casas os livros torpes, é necessário que os adeptos da infâmia caiam sob a alçada da lei, que um movimento enérgico de repressão castigue em nome do bem público".
Raúl Leal atrevera-se a falar de “sodomia”, enquanto os poemas de Judith Teixeira e de Botto, que abordam de forma explícita o amor e o erotismo entre pessoas do mesmo sexo.
Contra a corrente do seu tempo, Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), fará a defesa de António Botto e Raúl Leal em "Aviso por causa da moral" (Álvaro de Campos, Europa, 1923): “Quando o público soube que os estudantes de Lisboa, no intervalo de dizer obscenidades às senhoras que passam, estavam empenhados em moralizar toda a gente, teve uma exclamação de impaciência (...) Os moços da vida da escolas intrometem-se com os escritores que não passam pelas mesmas razões que se intrometem com as senhoras que passam. Se não sabem a razão antes de lha dizer, também a não saberiam depois. Se a pudessem saber, não se intrometeriam nem com as senhoras nem com os escritores. Bolas para a gente ter que aturar isto! Ó meninos: estudem, divirtam-se e calem-se. (...) Divirtam-se com mulheres, se gostam de mulheres; divirtam-se de outra maneira, se preferem outra. Tudo está certo, porque não passa do corpo de quem se diverte (...)”.
Por sua vez, Judith Teixeira defende-se com uma conferência pública, "De mim", para a qual escreve: “Vivi nas horas dessa ardente concepção, esta luxúria que era a forma da minha Sinceridade. (...) Desta minha alta concepção dos processos morais da existência, desta minha singular lealdade de “afirmar”, nasceu, pois, o desacordo entre mim e a Maioria. A compreensão vulgar chamou-me, por isto, é claro, imoral e dissolvente!...”.
De nada vale. O país está à beira de entrar em período ditatorial, como ilustram os claros apelos ao exercer da censura e a uma vigilância moral que o Estado Novo formalizaria.

A “mulher feminina”
No plano moral, o regime que resultou do golpe militar de 1926 deu resposta ideológica, legal, policial e prisional aos anseios de limpeza moral das classes burguesas urbanas que o sustentavam. Alvo das elites, toda a exclusão social: os “maus costumes de certas classes da população da cidade: ofensas corporais, desobediência, embriaguez, difamação, calúnia e injúria, ultraje à moral pública, vadiagem, mendicidade e ameaças”
[1].
A Constituição do Estado Novo (1933) determinava (artº 5º) a igualdade de cidadãos perante a lei "salvas, quanto à mulher as diferenças resultantes da sua natureza e do bem da família". Alterado em 1971, conservou a expressão "salvas, quanto à mulher as diferenças resultantes da sua natureza". O sentido da doutrinação é claro: à mulher cabe o papel de “mãe, esposa, irmã ou filha de todos os que somos em Portugal” (Salazar
[2]), e portanto confinado à família. Apesar de reconhecer o direito de voto às mulheres em 1931, o regime limita-o às diplomadas com cursos superiores ou, pelo menos, com o Ensino Secundário.
Os sucessivos Códigos Civis do Estado Novo definiam a chefia masculina do agregado familiar, com poder de decisão sobre a decisão de a esposa trabalhar ou não, ou de lhe autorizar a entrada ou saída no País. A versão de 1967 ainda declara a não-virgindade da mulher como motivo de anulação do matrimónio, legitima a violação da correspondência da esposa pelo marido, e aceita que o flagrante adultério pode determinar pena branda pelo seu assassinato.
A Obra das Mães pela Educação Nacional (criada em 1936), a Mocidade Portuguesa Feminina e organizações católicas propõem às mulheres a aprendizagem das tarefas caseiras, a ocupação integral com o cuidar dos filhos, uma valorização do “feminino”, por oposição ao novo feminismo pós-sufragistas, e aos novos estereótipos e modos de vida de mulheres a caminho da emancipação que chegavam do estrangeiro, sobretudo desde o fim da IIª Guerra.

A institucionalização de um modelo repressivo
No concreto, a “regeneração social” resultante do esforço de doutrinação do Estado Novo, visa particularmente a visibilidade social da mendicidade e da “indigência” ou “vadiagem” - negando e ocultando a existência da pobreza e da miséria -, da prostituição (ora legalizada por Salazar em 1938, ora proibida de novo a partir de 1943 por pressão da Igreja Católica), ou de toda a sexualidade que agredisse “o princípio básico da moral sexual”, o primado da família patriarcal, e “o da sexualidade genital e da reprodução”, ou seja, quaisquer práticas para além da cópula entre homem e mulher, “acto humano por excelência, pois é com ele que a espécie humana se reproduz”
[3]. Aquilo a que a legislação chamará, sem definir, “vícios contra a natureza”, e que contém não apenas os actos homossexuais, como também a prostituição e toda a sexualidade não reprodutiva.
Assim, o Código Penal (CP) do Estado Novo baseia-se no de 1886 (por sua vez, resultante da revisão do primeiro CP, de 1855), e nenhuma das reformas a que o submete - 1954, 1972, 1975 e 1977 – altera o princípio de criminalização da homossexualidade, que em Portugal só seria abolido com a revisão de 1982. Mas vai mais longe, assumindo para o Estado a responsabilidade de uma intervenção musculada para lidar com problemas sociais que normalmente ficariam entregues à esfera da actividade social da Igreja Católica.
Mas, no contexto de longos períodos de depressão económica, de um êxodo rural crescente e permanente para as cidades, de um trabalho assalariado sem garantias nem segurança, grande parte da população, pobre, entrava potencialmente na qualificação de marginal. “A repressão, pelo Estado Novo, de mendigos, prostitutas, doentes mentais e homossexuais, a cargo da Polícia de Segurança Pública, tinha o duplo objectivo de os separar do resto da sociedade e de dar credibilidade ao projecto de regeneração dos portugueses (...)”
[4]. Afastar do corpo social dos “bons portugueses” os maus exemplos desviantes e “contagiantes” de “moral duvidosa”, que questionavam directamente os pilares da ideologia de Estado (submissão aos valores do trabalho, da obediência hierárquica, da família patriarcal), era essencial para credibilizar o projecto “regenerador” do regime e esconder as realidades sociais incómodas que se temia prejudicarem a “imagem” externa do País.

Assim, nos anos 30, desenvolve-se uma política estruturada, fundamentalmente policial e carcerária, de repressão da vadiagem e demais “marginalidades”. No artigo 71º do Código Penal do Estado Novo, os indivíduos que se entregassem “habitualmente à prática de vícios contra a natureza” são equiparados a tipos sociais como os "vadios", os "mendigos", os "rufiões que vivam a expensas de mulheres prostituídas", bem como às "prostitutas que sejam causa de escândalo público”, sendo-lhes atribuídas no artigo anterior as mesmas penalizações.
Entre estas, encontramos “medidas de segurança” como o “internamento em manicómio criminal”, “o internamento em casa de trabalho ou colónia agrícola”, a “liberdade vigiada”;a “caução de boa conduta” ou a “interdição do exercício de profissão”.
A insistência no carácter “habitual” dos vícios penalizados tem razão de ser. Apesar de o início do século XX ter sido marcado pelos precursores da sexologia e do movimento homossexual moderno, com o resultado da descriminalização da homossexualidade na Alemanha e na Rússia bolchevique, a base da criminalização da homossexualidade assenta por esta altura, nas sociedades ocidentais, numa nova visão, medicalizante, do “desvio” homossexual, de que Egas Moniz é exemplo em Portugal, e que perdurará nas legislações repressivas de todo o século XX
[5].

A medicalização do “desvio”
Já em 1902, Egas Moniz ditava as linhas desse olhar "científico" que a medicina moderna lançaria sobre a homossexualidade, considerando-a uma doença mental e uma perversão, na sua obra “A Vida Sexual”. No segundo volume, “Pathologia”, que permaneceu como livro de referência e de grande influência em Portugal, quer no meio médico, quer no meio jurídico, escrevia sobre o lesbianismo: “O tribadismo está bastante espalhado e grassa com grande intensidade, epidemicamente mesmo, nos centros mais populosos da Europa. Encontram-se em todas as sociedades, mas onde mais se evidencia é no mundo da prostituição, entre as actrizes e no seio da aristocracia”. Assim, a lésbica, ou “(...) tribade passa uma vida intima de torturas por não ter nascido homem: ella e o uranista completar-se-hiam operando uma troca de orgão sexuais.” Ou, mais claro, sobre a homossexualidade: “(...) A inversão sexual é uma doença tão digna de ser tratada como qualquer outra”.
As notas de rodapé a uma edição de 1986 do CP, citadas por Fernanda Câncio
[6], distinguem os homossexuais masculinos entre “invertidos” - “verdadeiros homossexuais, aqueles que assim procedem porque uma força estranha, um impulso da natureza, um pendor independente da sua vontade, dominando-os inteiramente, lhes anula toda a resistência que seria natural revelarem (...)”, a serem “curados” e não castigados, “pois quem é homossexual por doença não pode ser castigado (...)” -, e “homossexuais perversos” ou “pseudo-homossexuais”, os que assim se comportam “(...) por imitação, por vício, por curiosidade, por divertimento até, e que em si não contêm qualquer estímulo íntimo que a tal os leve”.
A mesma distinção entre “doença” e uma “perversidade” de perigo contagiante é estendida à homossexualidade feminina, que, no entanto, nunca é citada, no entender dos juristas da época para não “dar más ideias às mulheres portuguesas”
[7]. Mas na prática, a repressão concreta não distingue entre “doente” ou “perverso e reincidente”, nem deixa de fora o lesbianismo, aplicando a toda a homossexualidade as mesmas penalizações. Estas, aliás, não se ficam pelas descritas no Código Penal, podendo ser acompanhadas de sanções complementares como “exclusão da prestação de serviço militar, quando se traduzam em actos atentatórios dos bons costumes ou que afectem gravemente a dignidade, judicialmente reconhecidos ou em processo disciplinar”, “efeitos disciplinares quando, tratando-se de funcionários públicos, possam integrar factos gravemente atentatórios do seu prestígio ou da dignidade da função”, “certas inibições ou incapacidades civis, como a inibição do poder paternal (...)”.[8]
Poucos aspectos da ditadura estarão hoje tão pouco estudados e desenvolvidos pelos historiadores quanto o das consequências da metódica repressão moral e penal sobre as sexualidades tidas como “vícios contrários à natureza”. E, no entanto – tal como durante a repressão se encontravam formas de resistência e vivência - particularmente a partir da década de 60, o mundo muda e os novos exemplos penetram, embora lentamente e com grandes resistências.
Como os vindos dos Estados Unidos, onde a partir dos anos 50 se desenvolvem movimentos homossexuais públicos e no final dos anos 60 - os das revoltas estudantis em Portugal ou do Maio de Paris - terão lugar os motins que marcam a génese do movimento LGBT
[9] moderno. Dali chegam, por exemplo, os filmes e as actrizes de culto que anunciam esses novos modos de vida nas entrelinhas da censura, corporizados também nas mudanças radicais da moda pronto-a-vestir, na roupa feminina cada vez mais simples e funcional, ou na chegada de estilos musicais como o “rock”, ou de “tipos” juvenis constituídos com base na experimentação de drogas. O Estado Novo pouco mais pode fazer do que atrasar a chegada de uma mudança que o ultrapassa – e à realidade nacional – mas que também em Portugal vai penetrando e respondendo aos novos anseios liberalizadores dos costumes de uma juventude a que a sociedade de consumo, entre outros factores, começa a dar identidade social própria.
A homossexualidade clandestina
A perseguição às expressões da homossexualidade na literatura e nas artes vai também ser uma constante no Estado Novo. Se falar de sexualidade já não é desejável, simplesmente escrever sobre homossexualidade é para muitos autores correr o risco de auto-inculpação. Nem “A Vida Sexual” de Egas Moniz, escapa à proibição. Nacionais ou estrangeiros, romances, livros de sexologia e psicanálise, filmes, despachos de agências noticiosas são proibidos numa base moral, para preservar os tabus instituídos e evitar junto da juventude o seguir de modelos “vindos de fora”.
Assim o dizem de forma transparente os próprios censores, na fase final do regime:
“04.02.1969 – Reuter de Paris. Fala na utilização da pílula. Não falar em pílula no título. Coronel Saraiva”
[10].
“24.01.1971 (23:00) – Notícia ou anúncio da TV europa, de uma emissão às 20,30 de amanhã sobre sexualidade nas sociedades modernas – é para CORTAR. Dr. Ornelas”
[11].
Sobre o filme Baby Love (“Amor Perigoso”), de Alastair Reid, Pinto Fernandes, censor, escreve em 1969: “Trata-se de um filme que, pelo seu tom geral, não merece ser importado. Além das cenas que exibem intenso realismo (modelo pouco aconselhável para a juventude), mostra outras imbuídas de homossexualismo feminino (...)”
[12]
Sobre outro filme proibido, “Intim Report” (Rubin Sharon, 1968): “Trata-se de mais um filme sobre temas sexuais. São postos com a maior naturalidade problemas de mães solteiras, aborto, homossexualismo nas prisões, sexualidade em ambientes juvenis, e tudo sem a conveniente reprovação moral”.[13]
“02.08.1970 O caso de Beja, de dois cavalheiros que se suicidaram. Eram homossexuais. Não se pode dizer que pediram, nas cartas que deixaram, que os sepultassem lado a lado nem que veneno tomaram”.[14]
“12.08.1972 (22,55) – No Parque Eduardo VII, em Lisboa, numa rusga policial, foram presos 24 indivíduos – vadios, prostitutas e homossexuais. Pode falar-se nos vadios e nas prostitutas, mas não nos homossexuais. Tenente Teixeira”[15]

Esta tentativa de apagar o “desvio” da realidade cultural e social, tem naturalmente ainda maior correspondência na vida real. A secção de costumes da PSP vigia os locais públicos e desdobra-se em rusgas e detenções que forçam as vivências homossexuais à clandestinidade e ao silêncio. É o “passa-palavra” sobre locais de encontro e convívio: “Não havia sítios oficialmente conotados. Mas havia sítios onde as pessoas sabiam que iriam encontrar outras, por transmissão pessoal”. (...) Havia grupos fechados que se convidavam entre si, mas os lugares públicos eram perigosos por causa da Polícia dos Costumes. A qualquer hora podiam aparecer 2 ou 3 agentes que identificavam todos os presentes e levariam presos os que não tivessem identificação consigo ou que lhes parecessem suspeitos; presos pelo menos por algumas horas, mas ficando isso registado no cadastro individual (...)”.
[16]
Alternativa são as pensões que, apesar de controladas pela polícia, abrem portas à prostituição, fechando também os olhos a outras actividades. Sobravam as praias, com menor vigilância, como as da Costa da Caparica antes da construção da ponte sobre o Tejo (1966), de que os homossexuais lisboetas, pelo menos a partir dos anos 50, começam a fazer local de encontro e convívio. Ou então os perigosos, porque extremamente vigiados, locais “de engate” – estações de comboio, saunas, ou “os urinóis”, como referido por um guarda da secção de costumes da PSP de Lisboa em entrevista a Susana Pereira Bastos: “Antigamente, havia junto daqueles sanitários públicos, os urinóis, no Rossio, no Largo da Anunciada, no Cais do Sodré, no Campo Pequeno (...) Eram homens, pederastas, que iam para os mictórios fazer as suas conquistas”.
“Politicamente, tudo o que não se vê, não é”.
A afirmação é de Salazar, e podia aplicar-se à intencionalidade do modelo carcerário desenvolvido a partir dos anos 30 pelo Estado Novo para “internar” o “chulo”, o homossexual, o vadio, a prostituta, a criança em “risco moral”, o louco ou doente mental, o mendigo, alguns dos tipos sociais mitificados pelo regime na figura socialmente inútil e ameaçadoramente subversiva do “vadio” ou “indigente”. Estes não têm de corresponder à realidade, são antes uma amálgama das marginalidades e condutas consideradas desviantes pela moral do regime, na verdade, na sua maioria, aquilo a que hoje chamaríamos, fenómenos de exclusão social.
Quem fosse considerado como integrante destas categorias e personalidades desadequadas à ordem social, arriscava a prisão por longos períodos, frequentemente indeterminados, com o fim professado de “reeducação” através da disciplina e do trabalho, naturalmente um fim sem sucesso, como reconhecido pelos próprios responsáveis destas instituições face às elevadas taxas de “reincidência”.
O “internamento” - tal como, para os opositores do regime, a prisão, o exílio ou a deportação por motivos políticos - era a medida de segurança mais gravosa contra o “perigo social”. Nestes casos, o destino de quem fosse apanhado e não soubesse ou pudesse pagar à polícia de costumes, ia parar a instituições como o Albergue de Mendicidade da Mitra, no Poço do Bispo, em Lisboa.
Instituição semi-carcerária, criada e dirigida pela PSP em 1933, o Albergue da Mitra recebeu, até 1951, mais de 12 mil indivíduos, segundo os livros de entrada analisados pela antropóloga Susana Pereira Bastos, e dela saíram pouco mais de 10 mil, muitos destes por falecimento. Neste período, a morte é a causa principal de “saída” do sobrelotado Albergue, acima de 26 por cento, e em vários anos representa mais de metade das “saídas”.
A mesma autora refere, sobre as entrevistas que conduziu a ex-reclusos, que “as memórias das mitras eram de uma grande violência, porque eram internados administrativamente sem passar pelo tribunal. Sofreram várias formas de violência corporal, sobretudo no anexo do Albergue da Mitra, a Colónia Agrícola do Pisão (Quinta do Pisão), para onde eram enviados os homossexuais, quer administrativamente, quer depois de condenados em Tribunal. Ali havia as chamadas «visitas ao pinhal», onde espancavam os internados”[17]. Os maus tratos não eram apenas habituais, mas prática instituída.Existia, por outro lado, uma relação de complementaridade entre a Mitra e as instituições psiquiátricas: muitos dos reclusos da Mitra, classificados como doentes mentais, foram internados sem assistência especializada, e com a “prescrição” dos mesmos princípios regeneradores de “trabalho e obediência”.
Mas, no final dos anos 40, início da década de 50, desaparecem as “brigadas de trabalho” formadas por prisioneiros. A partir de 1952, e até 1974, a Mitra, como instituições congéneres, é transformada numa instituição para-psiquiátrica, descendo radicalmente o número de internados prisioneiros em função de medidas de segurança, até à sua total reorientação apenas para os casos de internamento psiquiátrico. O modelo repressivo da Mitra está finalmente a caminho da desestruturação.
[1] Fatela, João (1989), O Sangue e a Rua: Elementos para uma Antropologia da Violência em Portugal (1926-1946), Lisboa, Publicações Dom Quixote.
[2] Oliveira Salazar, “Discursos e notas políticas”, 1939.
[3] jurista Carmona da Mota (citado por Figueiredo Dias em 1972), referência de Fernanda Câncio in “No princípio era a igualdade”, DN Magazine 9/5/99
[4] BASTOS, Susana Pereira, “O Estado Novo e os seus vadios” – Contribuição para o Estudo das Identidades Marginais e da sua Repressão, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1997
[5] Inclusivamente no caso português: termos como “inversão” ou “aberração” do instinto sexual natural” persistem, por exemplo, nas regulamentações militares até final dos anos 90.
[6] DN magazine 9/5/99, “No princípio era a igualdade”.
[7] AGUIAR, Asdrubal de, “Medicina legal” - Lisboa : Empresa Universidade Editora - 2º vol.: Sexologia forense, 1941.
[8] Parecer do Conselho Consultivo da Procuradoria Geral da República, Janeiro de 1980, elaborado por Lopes Rocha, no qual se sustenta que “não estão consagradas na lei portuguesa discriminações relativamente aos homossexuais, unicamente decorrentes desta anomalia”, não podendo “todavia, analisar-se os efeitos descritos na conclusão anterior como verdadeiras discriminações, uma vez que os mesmos podem resultar, em termos genéricos, de mau comportamento social ou de actos atentatórios dos bons costumes, que atingem outros comportamentos não necessariamente relacionados com a homossexualidade”. A descriminalização da homossexualidade em Portugal ocorre dois anos depois.
[9] Lésbico, Gay, Bissexual e Transgénero.
[10] Telegramas telefonados da Comissão de Exame Prévio do Porto, seleccionados do arquivo do Jornal de Notícias, despachos via TLP entre 05 de Janeiro de 1967 e 24 de Abril de 74). PRÍNCIPE, César, in “Os Segredos da Censura”, Ed. Caminho, Colecção Nosso Mundo. Lisboa, 1979.
[11] Ídem
[12] ANTÓNIO, Lauro. "Cinema e censura em Portugal", Biblioteca Museu República e Resistência, Lisboa, 2001
[13] Ídem
[14] PRÍNCIPE, César, in “Os Segredos da Censura”, Ed. Caminho, Colecção Nosso Mundo.Lisboa, 1979
[15] Ídem
[16] Entrevista com Ana Silva (Revista lésbica “Lilás” nº8, 1994, pág 35)
[17] Susana Pereira Bastos, em entrevista a Simon Kuin, Revista do Expresso, 1 de Março de 1997.
* Artigo desenvolvido a partir do trabalho de investigação inter-associativo que culminou na realização da exposição "Olhares (d)a Homossexualidade - um contributo para a história da homossexualidade no século XX português", 2002, vários autores.

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terça-feira, dezembro 18, 2007

Dia Nacional da Homofobia Monárquica

Amanhã de manhã, a comissão de Ética da Assembleia da República debate a petição de activistas LGBT pela criação de um Dia Nacional Contra a Homofobia.

O deputado responsável pelo parecer foi Nuno da Câmara Pereira, deputado monárquico eleito pelo PSD.

Destacamos deste relatório a passagem brilhante na qual este inacreditável deputado fundamenta o parecer de simples arquivamento da petição:
"(...) a instituição de um dia de luta contra a homofobia, entendida, de um modo genérico, como o medo irracional ou preconceito em relação à homossexualidade, seria, de alguma forma, atentar contra a liberdade de opinião.
De facto, embora a sociedade ideal seja uma sociedade livre de preconceitos, a verdade é que, e na medida em que não interfira com a esfera dos direitos, liberdades e garantias dos outros, há que aceitar, enquanto Estado democrático e de Direito, o direito à diversidade de opinião.
Ao instituir-se um dia mundial de luta contra a homofobia estar-se-ia, no fundo, a instituir um dia contra todos aqueles que pensam a sexualidade de modo distinto e, consequentemente, a colocá-los numa situação de discriminação."

Com esta argumentação, o referido deputado pede o simples arquivamento da petição.

Vai ser uma discussão linda, amanhã, vai!!!

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sexta-feira, novembro 30, 2007

Carta ao Viegas.

Não deixem de ler também o excelente comentário de Daniel Oliveira em http://arrastao.org/lgbt/ainda-e-cedo/

CARTA AO VIEGAS

Francisco José Viegas escreve. Já o sabemos. Desta vez, contudo, surpreendeu mais do que nunca, ao conseguir (quando comparadas as suas qualidades de pensamento literário com as dela) converter Margarida Rebelo Pinto numa verdadeira e merecidíssima candidata ao Nobel da Literatura.
Tão iluminado por um blogue (porque teve preguiça de ir mais além), diz que " hetero que é hetero nem menciona o facto, limita-se a nem falar do assunto". Mais adiante, repete a ideia. Só que a ela foge de forma "histérica", como apelidou massivamente as reacções (que não entende!) das pessoas LGBT. Depreendo que então "hetero" não possa ser vossa mercê, já que tudo o que escreve – e desde logo aí começa a questão: sentir-se compelido a escrever e a "falar do assunto" - contraria tal inutilidade da afirmação dos "heteros". Francisco, Francisco… olhe que a gente pode não ter recebido prémios da Associação Portuguesa de Escritores, mas (umas vezes pior, outras bastante bem) sabe ler o que vossa mercê profere!

A idiotice que (estando sóbrio?!) reconhece à campanha da Tagus é directamente proporcional às atrocidades que escreve. Diz-nos que a mesma campanha foi "inexplicavelmente" retirada do site – não, não foi inexplicavelmente, querido Francisco, foi por mobilizar pessoas (felizmente) atentas a palavras tão perigosas, chauvinistas, retrógradas (e ainda acha que "há sinais dos tempos"?!) como as suas. Leia mais atentamente a História e verá que foi em ignorâncias como as que nos oferece que os totalitarismos e os genocídios beberam as mais fortes inspirações. Ignorâncias (quase sempre) fingidas por parte de quem se sentava nos tronos para ganhar prémios, materiais ou de outra espécie. Oxalá os seus prémios não nos levem a temer que o seu nome se equipare ao de Hitler.
"Parecer-lhe" que não há ódio não chega: exactamente por isso, por se limitar ao "parecer" sem se esforçar por saber, depois dos prémios que recebeu e dos cargos que ocupa, é necessário que se fundamente. Valia a pena perceber (sabendo, em vez de lhe "parecendo") que não, não somos uma "classe de coitadinhos e de vítimas de tudo e de nada". Afinal, nem temos que ser vítimas de "tudo", porque já somos vítimas de palavras como as suas. Se se queixa que hoje há que "vigiar cada distracção, cada frase mal pronunciada", imagine que queixas temos nós enquanto houver pessoas como você, querido Francisco, ao dizerem coisas assim. Não sei se bebeu demasiada Tagus. Parece - aqui a palavra faz, por decorrência lógica da sua falta de lógica, muito sentido. Mas, mesmo que a tenha bebido (e a gente sabe que tem direito a fazê-lo) nem por isso está perdoado. Escreva, preferencialmente, quando os efeitos nocivos de tais líquidos tiverem já cessado.
Quer ainda parecer-me que Fernando Pessoa ficaria bem pouco orgulhoso (sim: orgulhoso) da sua Direcção na casa que recebeu o nome dele. E estou em crer que o orgulho, como o conhecemos (não como você julga conhecê-lo), é coisa de que o grande vulto não se envergonharia. Se ressuscitar, que não me atraiçoe o poeta nesta crença. Ou, então, desisto do mundo.
Fecha o seu artigo com chave do pior metal, ao ensinar-nos que "precisamos de contar anedotas sobre brancos, pretos, judeus, muçulmanos, gays, machos, mulheres, loiras, morenas, católicos, papas, padres, rabinos, alentejanos, açorianos, portuenses, lisboetas, o que for. Para ver se somos gente normal. Ou se só copiamos os estereótipos politicamente correctos". Fale por si. Ou nem fale. Que isto de "normal" há muito que tem que se lhe diga. E antes o "politicamente correcto" que o "profissionalmente incauto", como bem nos demonstrou que é.
Que o Francisco é muito sorridente já a gente tinha dado por ela. Que precise de pessoas por si assim apelidadas para se divertir e para que o sorriso se lhe crave duradouramente na face é que custa. Vai ver, ainda alguém lhe oferece, à maneira de algumas organizações norte-americanas que se debatem com palavras como as suas, o título de "homossexual honorário". Porque trazer o seu orgulho até nós seria tudo menos "histérico". Apenas uma lição de convívio com as "distracções" que todos os dias, em muitas horas, em muitos lugares nos assomam e às vezes nos matam. Inclusive as distracções da comunicação social. Na qual tem responsabilidades, querido Francisco.
Nuno Santos Carneiro
Psicólogo e Activista LGBT

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sábado, novembro 24, 2007

TAGUS REFORMULA MAS NÃO ENTENDE

Divulgamos abaixo carta enviada ontem a vários colectivos LGBT pelo grupo Sumol, segundo a qual este se prepara para reformular a campanha da TAGUS.
Com efeito, hoje de manhã, o website da campanha da Tagus,
http://www.orgulhohetero.com/ não se encontrava on-line.
A resposta do responsável do grupo Sumol, porém, ao incluir a afirmação de que "Todas as orientações sexuais são legítimas devendo, desejavelmente, ser assumidas com orgulho." (ponto 3), faz-nos temer pela dita reformulação e exige que permaneçamos atentos/as, pois demonstra que a campanha é retirada pelo impacto negativo criado, mas sem que os responsáveis tenham entendido o essencial do nosso protesto:

1 - a orientação sexual não é nem deve ser motivo de orgulho, e o orgulho LGBT é uma afirmação emancipadora de uma comunidade discriminada, não se referindo a uma orientação sexual, mas à recusa da invisibilidade destas realidades não-aceites pela norma moral dominante;

2 - O orgulho numa orientação sexual, maioritária e hegemónica - a heterossexualidade -, é o sentimento por detrás da perseguição homofóbica, lesbofóbica, bifóbica que continua a caracterizar a sociedade portuguesa, apesar dos avanços dos últimos anos.
Mais acrescentamos que o problema deste género de publicidade não se resume à campanha que aqui contestámos nem à homofobia. As campanhas publicitárias da TAGUS - e de outras marcas de cerveja - têm sido marcadas por um cunho sexista e/ou exploratório dos sentimentos machistas ainda maioritários na população portuguesa, explorando ao limite a utilização de imagens da mulher como mero objecto sexual, e os sentimentos de masculinidade exacerbada, do que é exemplo a imagem que aqui publicamos, simultaneamente sexista e indirectamente homofóbica.
Reafirmamos o nosso compromisso de combate a todas as discriminações, e o nosso empenho na vigilância e condenação de todas as estratégias publicitárias que, abordando estas temáticas, inescrupulosamente explorem tais sentimentos ao invés de contribuírem para a sua erradicação.

"23/11/2007 COMUNICADO grupo sumol

Na sequência de algumas questões que nos foram colocadas relativas à Campanha “Tu És Hetero?” cabe-nos esclarecer os seguintes pontos:

1- Esta Campanha não pretendia defender ou atacar nenhuma causa concreta. A mesma deveria ser entendida tendo em linha de conta oposicionamento irreverente da marca.

2- O objectivo foi criar uma Campanha que surpreendesse pela originalidade da abordagem, mas sem quaisquer preconceitos, sempre numaperspectiva positiva e respeitando as orientações de cada um.

3- Prezamos e respeitamos as liberdades individuais e a diversidade, entendendo que as orientações sexuais só ao próprio indivíduo dizem respeito, não devendo ser objecto de juízos de valor ou discriminação. Todas as orientações sexuais são legítimas devendo, desejavelmente, ser assumidas com orgulho.

4- Não obstante o atrás referido, face a algumas manifestações recebidas, considerámos oportuno reformular os termos em que a Campanha esteve presente. Na expectativa de que este comunicado possa ter esclarecido algumas das dúvidas suscitadas pela Campanha, estamos disponíveis para prestar esclarecimentos adicionais que entendam úteis."

João Nuno Pinto - Grupo Sumol"

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sexta-feira, novembro 23, 2007

Orgulho nos Direitos Humanos

Entendamo-nos:

- O movimento LGBT nunca falou em orgulho de uma orientação sexual. Orgulho LGBT não significa orgulho numa orientação sexual, sempre significou, sim, a recusa da vergonha e da invisibilidade por parte das pessoas a quem ela foi sempre imposta em nome da exclusiva legitimidade da heterossexualidade.
Não esqueçamos que ainda há 10 anos, em Portugal, nem sequer se falava de homossexualidade, e que esta só foi descriminalizada entre nós em 1982. Sim, muito mudou em 10 anos. Mas não, não tanto assim.

- A campanha da Tagus aborda, precisamente, uma orientação sexual como motivo de orgulho. A nossa contra-campanha limita-se a lembrar o que é o orgulho hetero no seu extremo: violência e discriminação contra as sexualidades que fogem a essa norma moral.

- Ora precisamente, orgulho hetero é o que temos todos os dias, e afirma-se a todo o momento sem necessitar sequer de ser afirmado, porque é hegemónico e legitimado socialmente, por oposição à menorização e discriminação das restantes sexualidades. É isso que faz do orgulho hetero um sistema político na sociedade actual, e o padrão pelo qual continuamos ainda a ser educados e nos tentam formatar desde pequenos.

- É precisamente porque a orientação sexual não é motivo de orgulho para ninguém, que ela também não pode ser motivo de discriminação ou perseguição. Como a identidade de género, tratam-se de características pessoais que não escolhemos nem nos resumem, mas que são parte inalienável do que somos.

- O que não é aceitável é que alguma publicidade continue a considerar legítimo, com base na crença da grande consensualidade que a homofobia ainda encontra na sociedade portuguesa, que é legítimo fazer dinheiro à custa da promoção de um sentimento - orgulho hetero - que não é mais senão o sentimento de superioridade da heterossexualidade sobre as restantes sexualidades.

Não é por acaso que Tagus não explora outros sentimentos de orgulho discriminatórios, como os raciais, com uma campanha de "orgulho branco", mas o princípio serias exactamente o mesmo - o de promover um orgulho opressivo de um grupo dominante, discriminando naturalmente um grupo que é alvo dessa opressão e desapossado não do seu orgulho, mas da sua própria dignididade enquanto pessoas, porque assim funciona a discriminação. A Tagus escolhe o orgulho hetero, porque a homofobia ainda goza no discurso público, em grande medida, ao contrário de outras discriminações, dessa consensualidade.

O que não seria aceitável era deixar passar em branco uma afirmação de orgulho hetero, como se as palavras não tivessem valor nem conteúdo, e ninguém lembrasse que orgulho hetero não é outra coisa, na verdade, senão a discriminação, a perseguição e a violência sobre milhares de pessoas LGBT em todo o mundo.
Portanto, não nos venham mais perguntar "se há orgulho gay porque não pode haver orgulho hetero?" Porque, meus amores, as pessoas lgbt é que foram perseguidas durante 2 mil anos, e ainda o são, pela sua orientação sexual ou identidade de género, em nome da verdade única da heterossexualidade.
Mas sobretudo porque não é a orientação sexual que é motivo de orgulho. Motivo de orgulho é o facto de lutarmos pelo direito a vivermos com a que temos numa sociedade que nos nega esse mesmo direito a sermo-nos como somos, independentemente da nossa orientação sexual. É esse o nosso orgulho. É isso o Orgulho Gay, Lésbico, Bi e Trans.

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quarta-feira, novembro 21, 2007

PANTERAS ROSA APOIAM CERVEJA TAGUS

O movimento Panteras Rosa apoia a campanha da cerveja TAGUS para a juventude hetero, lançada hoje em http://www.orgulhohetero.com/ .
Aqui lançamos uma campanha paralela de complemento à mesma, com um apelo à imaginação.










Para usar e difundir!
















DESENVOLVIMENTOS EM
www.orgulhohetero.org
www.orgulhohetero.net































































ORGULHO LÉSBICO, GAY, BI, TRANS, QUEER


Orgulho de Quê?
Nós, lésbicas, gays, bisexuais, transgéneros (LGBT) e outr@s rebeldes sexuais, temos orgulho de enfrentar as consequências de não escondermos a nossa identidade sexual ou de género. Temos orgulho de termos sobrevivido à nossa orientação sexual ou identidade de género fora da norma numa sociedade que nos condena ao silêncio e à vergonha (muit@s não sobreviveram). Nas nossas marchas, celebramos o orgulho de quem recusa a carga moral de culpabilidade que nos é imposta, quando seria tão fácil continuarmos a esconder os nossos desejos e apenas fingirmos “ser normais”.

















Não estamos orgulhosos da nossa orientação sexual, deixamos isso – e quaisquer definições de “normalidade” – para heterossexuais homofóbicos. Temos orgulho, sim, de escolhermos vivê-la, mesmo quando isso faz de nós alvos de discriminação e violência. Temos orgulho por oposição à vergonha. Temos orgulho nas lutas de longo prazo que tant@s travaram e travam contra a criminalização ou medicalização das nossas identidades e pela construção árdua dos nossos movimentos sociais.


Temos orgulho na força, no esforço, nos sacrifícios que tantas pessoas LGBT assumiram ao longo da História para sair do armário e exigir dignidade. Temos orgulho na imensa variedade das nossas expressões e formas de expressão. O orgulho LGBT é necessário como o “black is beautiful” foi necessário nos anos 60 norte-americanos: como então, muit@s de nós continuamos a sentir culpa, vergonha e auto-depreciação por aquilo que somos. Sem orgulho, as novas gerações LGBT em tantos países estariam condenadas à mesma existência clandestina que os seus predecessores combateram. No processo da sua auto-descoberta, muitas gerações têm tido, pela primeira vez, a possibilidade de crescerem como LGBT com referências positivas do que isso significa, e com menos referências negativas.

Nenhum outro motivo senão Orgulho motivou a histórica revolta de Stonewall - na origem do actual movimento lgbt -, quando o desejo de dignidade se traduziu em resistência à violência policial. Quando a nossa vida pessoal condiciona os nossos direitos cívicos, deixa de ser “privada” e torna-se “política”. E precisamos de ser visíveis hoje para que amanhã não tenhamos necessidade disso, quando as pessoas deixarem de ser definidas com base na sua identidade sexual ou de género.

“Dar a cara” continua, infelizmente, a ter consequências negativas. Mas é mesmo por isso que é preciso que cada vez mais gente saia do armário ou, pelo menos, se envolva com o associativismo LGBT: para inverter essa situação injusta. Para que um dia “dar a cara” seja tão natural como lavar os dentes e seja tão banal que não acarrete discriminação.

A homofobia é um sistema político na sociedade que temos.
Orgulho e activismo, armas contra a violência homofóbica e transfóbica e a sua promoção!
ORGULHO É PROTESTO!

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domingo, agosto 05, 2007

Poder da medicina e sexualidade

O lugar do médico na sociedade tem vindo a mudar nos últimos anos: à medida que o conhecimento científico deixa de ser um exclusivo dos técnicos e passa a estar partilhado por toda a sociedade (com as limitações inerentes ao excesso inacreditável de conhecimento nesta área que todos os dias é produzido), o médico deixa de ser o sacerdote de deus, o missionário detentor de um poder extraordinário para passar a ser alguém que detém uma informação valiosa para o seu utente (não doente, mas sim utente) e que deve decidir partilhá-la ou não! E é nesta decisão de partilha que surge o primeiro problema: à medida que o conhecimento passa do médico para o utente, este técnico deixa de ter o poder de decisão todo na mão e passa a partilhá-lo! Isto acaba com o poder exclusivo dos médicos (o que chateia muitos) e permite envolver o utente nas decisões sobre a sua própria vida (dando-lhe autonomia sobre o seu corpo, a sua saúde e a sua vida). Portanto, este é um problema sobre quem detém o conhecimento e, na sua consequência, quem está em posição de decidir sobre a vida de alguém!

Ora, sabendo nós que a questão do poder do conhecimento pode ser resolvida com a simples partilha de informação médico-utente (e claro que há alguns, especialmente médicos, que se ficam por esta base, tentando defender a todo o custo o seu lugar priveligiado na sociedade), resta-nos discutir o que significa ser autónomo e ter legitimidade para decidir sobre aquilo que é a única propriedade privada inalienável do ser humano - o corpo! E então na história surgem os primeiros confrontos entre grupos sociais oprimidos defendendo a sua autonomia e o poder do conhecimento médico anexado a uma elite de estudiosos e clínicos que se recusa a partilha-lo com o resto da sociedade! E nos primórdios surgem, pasme-se, as feministas, na sua luta pelo direito ao aborto, pelo direito a planear a sua maternidade ou a recusá-la, pelo direito a usar métodos contraceptivos, etc... No Portugal do séc. XXI, as leis da república, já contemplam (felizmente) o direito à mulher decidir sobre o seu corpo, em deterimento do poder regulador do conhecimento médico - EVOLUÇÃO!

Mas no Portugal e no Mundo do séc. XXI, a sociedade ainda não percebeu, que a autonomia em relação ao corpo próprio, à sexualidade livremente vivida, ao comportamento e papel social adoptado, ao género ou à recusa deste, são construções fundamentais para a liberdade individual de tod@s e para a integração social de um tecido humano, que se quer cada vez mais justo, solidário e diverso!

A medicina é um intrumento da humanidade e não uma instrumentalização desta! E é como instrumento colectivo que deve ser usado em proveito de cada um - a saúde é "o tal bem-estar físico, psíquico e social" e portanto todo o conhecimento, não só o biológico, mas também aquele que cai no domínio da psicologia e da inserção social, é conhecimento útil e colectivo!

Por isso defendo que a medicina não deve ser um instrumento regulador do nosso corpo e da nossa sexualidade, mas sim um instrumento de promoção de bem-estar e de utilização consciente individual. Não cabe ao médico nenhuma decisão sobre o seu utente, cabe ao utente decidir de acordo com o conhecimento médico que lhe é fornecido. Não cabe ao médico diagnosticar nada que o utente livre e conscientemente, não queira ver diagnosticado! Não cabe ao médico tratar um corpo que não é o seu, cabe-lhe informar e apenas informar e tratar quando o utente assim o decidir!

A medicina não é uma regulação das nossas consciências, mas sim algo que é regulado pelo bem-estar de cada um!

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sábado, julho 14, 2007

Reunião com a direcção do I.P.S. - 12 Julho

Panteras Rosa, 13 de Julho de 2007
Reunião com a direcção do Instituto Português do Sangue de 12 de Julho


No dia 16 de Maio, as Panteras Rosa entregaram no Ministério da Saúde um pedido de intervenção do Ministro Correia de Campos junto do Instituto Português do Sangue (instituição sob a sua tutela), apelando à toma de medidas políticas necessárias para pôr cobro à discriminação de homossexuais masculinos na doação de sangue. Na sequência desta acção, foi requisitada, pelo próprio director do IPS, Dr. Gabriel Olim, uma reunião com as Panteras Rosa, no sentido de esclarecer a situação.

Resumo do encontro: Na referida reunião estiveram presentes, por parte das Panteras Rosa, Sérgio Vitorino e Bruno Maia, da parte do IPS figuraram Gabriel Olim, director, uma consultora para a Saúde Pública e uma consultora Jurídica.
A reunião iniciou com uma pequena introdução do director, que não só referiu os objectivos essenciais do IPS – recolha de uma grande quantidade de dádivas para fazer face às necessidades do país e de apuramento da qualidade dessas dádivas através do rastreio de sangue contaminado – como nos explicou que Portugal, está desde há 4 meses em auto-suficiência transfusional, isto é, a doação de sangue, pela primeira vez, é suficiente para as necessidades dos nossos hospitais.
No ponto seguinte, o Dr. Gabriel Olim explicou que a base do critério de exclusão para homossexuais masculinos, reside na uniformização de critérios internacionais, a que o IPS está sujeito por integrar uma rede europeia de transfusão sanguínea. De acordo com este, em quase toda a Europa, os homossexuais masculinos estão excluídos da dádiva, facto que assenta unicamente em dados epidemiológicos. Estes dados, que terão sido recolhidos nos EUA, mostram que a aceitação da doação por homossexuais implicaria um risco de recolha de sangue contaminado aumentado em 100%. Ou seja, o risco de um doente receber uma dádiva contaminada duplicaria! Aceitando, por contra-argumentação nossa a desactualização destes dados e a desadequação à realidade Portuguesa, Gabriel Olim, referiu que para contrariar estes dados e acabar com a discriminação, só o poderá fazer quando a nível europeu surgir algum estudo epidemiológico de base populacional e fidedigno, que demonstre claramente que a prevalência de infecção por HIV, HBV e HCV não apresenta diferenças significativas entre homo, bi, ou heterossexuais. Só com base em informação deste tipo é que o IPS poderia aceitar mudar este critério. Caso contrário, este instituto teria de justificar-se perante os organismos internacionais e a opinião pública.
Perante a contra-argumentação das Panteras, reafirmando a necessidade de se falar em comportamentos ou práticas de risco e não em grupos de risco, da actualização dos critérios de doação, tornando-os mais ajustados à realidade, de percepção por parte do IPS que não é a orientação sexual que está em causa mas sim as atitudes individuais de cada dador face à sua sexualidade, o director do IPS volta a reafirmar a pressão a que está sujeito e que uma alteração de política só poderia advir de um facto cientificamente concreto.
É nesta fase que nos é proposto, pelo IPS, um acordo comum: o IPS sugere a realização de um estudo epidemiológico, por uma entidade independente, com proposta de colaboração da Coordenação Nacional para a infecção do HIV/Sida, em que fossem avançados resultados comparativos, que atestem estatisticamente não existir diferença significativa na prevalência de doenças infecciosas entre grupos de homossexuais e grupos de heterossexuais. Desta forma, o IPS comprometer-se-ia a alterar as regras na selecção de dadores e a apresentar os resultados deste estudo a nível Europeu, no sentido de sensibilizar os restantes países a alterarem também as suas regras. O IPS disponibilizar-se-ia a colaborar de forma independente e aceitaria a presença de associações LGBT e de luta contra a SIDA como observadores externos. O Dr. Gabriel Olim reforçou ainda que esta seria a única forma de conceder às alterações necessárias e seria também uma forma de criar uma trégua com a contestação que lhe tem sido dirigida.
Confrontado com a discrepância e deturpação preconceituosa das regras e critérios nos vários centros de recolha de sangue do país – ex. ainda há menos de uma semana recebemos queixa de um dador homossexual a quem o médico responsável de um centro de recolha em Torres Vedras afirmou que “para os homossexuais não há período de janela definível”. Outro exemplo, o próprio IPS reconhece a existência ilegítima, face às suas normas estipuladas, de casos em que dadoras lésbicas foram excluídas pela sua orientação sexual - o IPS comprometeu-se ainda a enviar uma nova (Olim referiu circulares anteriores, de que não tínhamos conhecimento) circular normativa a estes, no sentido de cumprirem objectivamente as regras centrais do Instituto.

Comentário: Deste encontro retiramos várias conclusões importantes. Em primeiro lugar, pela primeira vez, o IPS demonstra, ao convocar a reunião, que a pressão que tem sido feita por parte de partidos políticos e movimento LGBT tem causado incómodo junto deste instituto. Em segundo lugar, o IPS reconheceu claramente que as declarações do ano passado segundo as quais estava em preparação uma revisão das normas que afectaria esta proibição eram apenas estratégicas, e portanto, falsas.
Depois interpretamos que a proposta de realização deste estudo é, claramente, uma tentativa de silenciamento da questão junto daqueles que se têm manifestado contra as regras de doação. A realização de um estudo desta envergadura leva o seu tempo, tempo que seria suficiente para o IPS ter a trégua desejada.
Contudo, a proposta do IPS lança um desafio interessante, e até independente da problemática do sangue: estudar os comportamentos sexuais dos Portugueses (e não apenas da população homossexual), permitindo-nos perceber a realidade dos comportamentos para a saúde e das IST’s também na comunidade homossexual com utilização de recursos estatais, o que seria inédito.
Deixámos, assim, claro ao presidente do IPS que um estudo desta natureza nos interessa, mas não porque permita retirar conclusões para doação de sangue: nenhum estudo sobre um grupo social, mesmo que conclua que existam diferenças em termos de epidemiologia (e essas são sempre conjunturais e mutáveis ao longo do tempo, exigindo sempre estudos sucedâneos), pode servir para uma exclusão generalista do mesmo grupo social, porque, lá está, o foco da selecção dos dadores deve estar nos comportamentos e práticas sexuais de risco, e não na orientação sexual das pessoas, ou seja, cada pessoa é um caso. Mais, afirmámos que qualquer estudo sobre a sexualidade dos portugueses, mesmo que venha a apontar diferenças na incidência de IST’s entre hetero e homossexuais, comprovará algo muito mais determinante – ou devia sê-lo – para quem pretende garantir a qualidade do produto sanguíneo: a inexistência de práticas sexuais especificamente homossexuais – sexo anal, sexo oral, todos os tipos imagináveis de penetração genital ou com recurso a objectos, continuamos à espera que nos indiquem uma prática, de maior ou menor risco, que se possa dizer que é praticada por homossexuais e não exista entre heterossexuais. Visto que os dados epidemiológicos hoje disponíveis em Portugal apontam, por exemplo, para um grande crescimento da taxa de infecção pelo VIH entre mulheres casadas, perguntámos ao presidente do IPS se seria justificável que isso fosse critério para excluir liminarmente da doação as “mulheres casadas”. Obviamente que assim se demonstra um duplo critério, e que a generalização só é aplicada contra um grupo socialmente estigmatizado como é o da população homossexual masculina. O IPS reconhece, claramente, que a norma não existe por critério médico, mas como consequência do preconceito social contra a homossexualidade.
De qualquer forma, ao propor tal estudo, Gabriel Olim, a quem reconhecemos – e deve registar-se – capacidade de diálogo e disponibilidade para ouvir e argumentar (que o seu antecessor não tinha), reconhece que a norma proibitiva do IPS se baseia em… nada, ou seja, num desconhecimento de facto da realidade do grupo social que se exclui liminarmente.
Sabemos, por outro lado, que a Coordenação Nacional para a Infecção VIH-Sida já se encontra a financiar um amplo estudo sobre a sexualidade dos portugueses, pelo que não se justificará a realização de um novo estudo, muito menos um estudo apenas epidemiológico. De qualquer forma, tal como o IPS pelo seu lado, estamos a desenvolver contactos com o coordenador nacional para auferir a sua posição sobre esta proposta. Se ela, como prevemos, apontar para este estudo já em realização, naturalmente, convidaremos o IPS a retirar dele conclusões, não quanto aos dados epidemiológicos, porque esses não são generalizáveis (o IPS não generaliza para todos os homens heterossexuais, por exemplo, o facto estudado de 40% destes recorrerem a sexo com prostitutas e de uma alta percentagem o fazer sem recurso ao preservativo), mas sobre, precisamente, a inexistência de práticas sexuais especificamente homossexuais.
Em conclusão:
- estudos, para mais não-exclusores da realidade lgbt e financiados estatalmente, colaboraremos com o IPS e outras entidades, em todos os que quiserem realizar, desde que não sejam tendenciosos. Não temos medo da informação que estes possam revelar, nem somos dos que pensamos que se os dados epidemiológicos revelarem um crescimento das taxas de infecção entre homossexuais, é um desastre que tais dados sejam divulgados. Só conhecendo a realidade se pode intervir nela. Se o movimento LGBT tiver por essa via de regressar em força à prevenção, como nos anos 80 foi necessário fazer, é porque isso se revela necessário. Se – e repetimos, se - assim for, assim terá de ser, e não podemos fugir a essa responsabilidade. Mais – achamos duvidoso que, a serem revelados dados que indiquem um crescimento das taxas de infecção entre a população LGBT, eles não sejam acompanhados pela constatação de um crescimento idêntico entre a população heterossexual.
- Isso não tem nada que ver, porém, com a questão da doação de sangue. O fim da norma proibitiva justifica-se pela inexistência de práticas sexuais especificamente homossexuais, e pela ilegitimidade de generalizações sobre todo um grupo social. Só os comportamentos de risco importam, e esses só são analisáveis pessoa a pessoa, e se o IPS insiste em não pensar assim, então é este organismo o primeiro a colocar em risco a segurança do produto sanguíneo, e a eficácia da sua própria missão. Que os responsáveis políticos e os médicos do IPS não o entendam, é sem dúvida o maior e mais perigoso comportamento de risco no que toca à protecção da qualidade do sangue.
Esperamos assim, que brevemente seja planeada uma reunião entre associações LGBT, Coordenação Nacional para a infecção VIH/Sida, associações de luta contra a sida e IPS, e prestaremos contas públicas sobre o desenvolvimento deste processo de diálogo. Não esperamos, pelo que acabamos de descrever, que o IPS altere a norma discriminatória a breve prazo, pelo que o nosso único compromisso é o do diálogo, da continuação da afirmação das nossas posições, sem prejuízo da colaboração nos estudos independentes que venham a ser propostos.
Panteras Rosa – Frente de Combate à LesBiGayTransfobia

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