sexta-feira, novembro 23, 2007

Orgulho nos Direitos Humanos

Entendamo-nos:

- O movimento LGBT nunca falou em orgulho de uma orientação sexual. Orgulho LGBT não significa orgulho numa orientação sexual, sempre significou, sim, a recusa da vergonha e da invisibilidade por parte das pessoas a quem ela foi sempre imposta em nome da exclusiva legitimidade da heterossexualidade.
Não esqueçamos que ainda há 10 anos, em Portugal, nem sequer se falava de homossexualidade, e que esta só foi descriminalizada entre nós em 1982. Sim, muito mudou em 10 anos. Mas não, não tanto assim.

- A campanha da Tagus aborda, precisamente, uma orientação sexual como motivo de orgulho. A nossa contra-campanha limita-se a lembrar o que é o orgulho hetero no seu extremo: violência e discriminação contra as sexualidades que fogem a essa norma moral.

- Ora precisamente, orgulho hetero é o que temos todos os dias, e afirma-se a todo o momento sem necessitar sequer de ser afirmado, porque é hegemónico e legitimado socialmente, por oposição à menorização e discriminação das restantes sexualidades. É isso que faz do orgulho hetero um sistema político na sociedade actual, e o padrão pelo qual continuamos ainda a ser educados e nos tentam formatar desde pequenos.

- É precisamente porque a orientação sexual não é motivo de orgulho para ninguém, que ela também não pode ser motivo de discriminação ou perseguição. Como a identidade de género, tratam-se de características pessoais que não escolhemos nem nos resumem, mas que são parte inalienável do que somos.

- O que não é aceitável é que alguma publicidade continue a considerar legítimo, com base na crença da grande consensualidade que a homofobia ainda encontra na sociedade portuguesa, que é legítimo fazer dinheiro à custa da promoção de um sentimento - orgulho hetero - que não é mais senão o sentimento de superioridade da heterossexualidade sobre as restantes sexualidades.

Não é por acaso que Tagus não explora outros sentimentos de orgulho discriminatórios, como os raciais, com uma campanha de "orgulho branco", mas o princípio serias exactamente o mesmo - o de promover um orgulho opressivo de um grupo dominante, discriminando naturalmente um grupo que é alvo dessa opressão e desapossado não do seu orgulho, mas da sua própria dignididade enquanto pessoas, porque assim funciona a discriminação. A Tagus escolhe o orgulho hetero, porque a homofobia ainda goza no discurso público, em grande medida, ao contrário de outras discriminações, dessa consensualidade.

O que não seria aceitável era deixar passar em branco uma afirmação de orgulho hetero, como se as palavras não tivessem valor nem conteúdo, e ninguém lembrasse que orgulho hetero não é outra coisa, na verdade, senão a discriminação, a perseguição e a violência sobre milhares de pessoas LGBT em todo o mundo.
Portanto, não nos venham mais perguntar "se há orgulho gay porque não pode haver orgulho hetero?" Porque, meus amores, as pessoas lgbt é que foram perseguidas durante 2 mil anos, e ainda o são, pela sua orientação sexual ou identidade de género, em nome da verdade única da heterossexualidade.
Mas sobretudo porque não é a orientação sexual que é motivo de orgulho. Motivo de orgulho é o facto de lutarmos pelo direito a vivermos com a que temos numa sociedade que nos nega esse mesmo direito a sermo-nos como somos, independentemente da nossa orientação sexual. É esse o nosso orgulho. É isso o Orgulho Gay, Lésbico, Bi e Trans.

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Observatório Homofobia/Transfobia na Saúde @ Médicos Pela Escolha
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