sexta-feira, dezembro 30, 2005

Um milhão, what's new?

Vale a pena olhar para o estudo a que o Expresso dedica hoje a sua capa. Dizem-nos que entre bi e homossexuais, seremos 9,9 por cento da população portuguesa, cerca de um milhão de pessoas. Que o assunto seja puxado para manchete, entre tantos outros dados presentes no estudo, dá que pensar: é como se o Expresso descobrisse agora que a homossexualidade existe e ficasse de boca aberta. Tanto/as?! Fora todos e todas aqueles e aquelas que não sabem, não questionaram, não assumem ou têm mesmo raiva de quem o faz.
Mas o dado mais curioso é aquele que não apresentado como resultado: que dois terços dos inquiridos neste estudo, anónimo e confidencial, se recusaram pura e simplesmente a responder, por vergonha, preconceito ou tabu incapacitante, às questões sobre a sua sexualidade e a dos outros, a ponto de se ver gorado o objectivo de um estudo representativo da população portuguesa. Ficamos então a saber que a amostra só pode ser considerada representativa dos e das jovens entre os 15 e os 30 anos. E esta limitação diz mais sobre a incapacidade e obscurantismo dos portugueses quanto a debater abertamente as questões da sexualidade do que todo o estudo em si.
O Expresso revela-nos outros números: neste jovem universo cerca de 15% dos homens recorrem a prostitutas e mais de 15% usam o preservativo às vezes ou nunca, cerca de 17% das mulheres já praticaram aborto e, destas, 80 % fizeram-no clandestinamente... em Portugal. E, sem surpresa, mais de 70 por cento destes jovens são pela descriminalização desta prática. Quase tantos como os quase 80% que se manifestam contra a adopção de crianças por casais homossexuais.
Sobre este dado, um comentário particular: a população homossexual tem sido acusada de reivindicar a adopção por inaceitável "capricho" (Miguel Sousa Tavares dixit) quando estão em jogo as vidas de crianças. Na verdade, como mais uma vez se vê, a adopção homossexual é, sim, um fantasma e uma obcessão da sociedade hetero. Se assim não for, como se explica que a questão seja sempre colocada em torno da adopção, ao invés de se confrontarem as opiniões com uma realidade muito mais premente e emergente, a da homoparentalidade: dos milhares de gays e de lésbicas portugueses/as que já hoje têm filhos e filhas biológicos? Que diriam então as mesmas pessoas que se pronunciam contra a adopção por homossexuais? Se fossem coerentes, que estas crianças deviam ser retiradas aos seus pais. Toda a gente sabe que estariam melhor nas casas pias deste país?! Tenham dó! Há milhares de anos que homossexuais fazem crianças dentro da prisão do casamento hetero, a que eram obrigados pelas circunstâncias opressivas. Agora, só querem - os/as que querem - fazê-los livremente. Aliás, já os fazemos. A nossa orientação sexual não nos retirou capacidade reprodutiva, que história é essa de que homossexuais não podem ter filhos? Não só podemos, como fazemos: não esperamos pela autorização nem do Estado nem de nenhuma maioria heterossexista. Não deixa de ser engraçado que a sociedade se pronuncie maioritariamente contra a possibilidade de homossexuais assumirem a guarda de crianças, acreditando que têm a legitimidade ou o poder para nos impedir de o fazer. :) Wake up, babies, look around, a realidade ultrapassa há muito a vossa fic(xa)ção. Bom proveito vos faça o preconceito, mas tirem o cavalinho da chuva: ele já não nos impede de viver as nossas vidas.

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Observatório Homofobia/Transfobia na Saúde @ Médicos Pela Escolha
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