sábado, fevereiro 11, 2006

São pouco homens!!! E pouco mulheres!!!

Tanto se fala do casamento entre pessoas do mesmo sexo, e até apareceu um filme de cowboys gays que é nomeado para vários Óscares, mas em Portugal continuamos na mesma, ou - talvez seja mais correcto dizer - andando para trás, pois apesar de vivermos numa democracia política esta está algemada pela inquisição moderna e pela sua estratégia de opressão a que chamam moral!
É talvez um exercício de imaginação excessivo para este país com uma reputação de intelectualmente preguiçoso, mas para quem consiga vencer esse preconceito, pode ser muito interessante imaginar como as gerações futuras analisarão os acontecimentos actuais… Alguém duvida que poderão perceber a falta de visão dos políticos portugueses que estão no parlamento? Ou talvez seja mais correcto dizer a grande cobardia e a desmesurada homofobia latente???
Qual é a razão, ou melhor, qual é a desculpa??? Prevenir uma possível crise na sociedade??? Não será que estamos já a sobreviver a essa crise? Uma parte da população, apesar de não ser maioria numérica, é levada a sentir como clandestina e vergonhosa a expressão dos seus afectos pois não cumpre com os preceitos de Roma???
E CRISE, crise em maiúsculas, é onde já estamos: o pagamento das reformas, por exemplo, tem os dias contados, mas pagam-se reformas descomunais àqueles que têm sido os causadores dessa mesma crise… A injustiça é que é a razão das crises!!!A grande questão actual não será a dignidade das relações afectivas entre pessoas sem importar o seu sexo? Esta não é uma razão de cisão nesta sociedade desmembrada, pois essa crise já está instalada há alguns milhares de anos!!! O que acaba de acontecer é a cisão, mas com evolução, evolução da democracia, e essa cisão é da responsabilidade da classe política que não se preocupa em fazer crescer uma sociedade da qual é dirigente, da mesma forma como nunca se preocupou em formar os seus cidadãos. Ou existem dúvidas sobre o papel dos políticos???
Será que não entendem - não entendemos - que o seu papel não é fazer o que a cúria romana indica, ou será que realmente só querem ter tacho assegurado??? Pois, talvez a tentativa de separar o Estado da Igreja por esta estar a chupar os dinheiros de todos não tenha funcionado. Como é tão típico nesta ocidental praia lusitana, aqui temos mais um caso onde se cria uma estrutura que é o espelho de outra que estava decadente, e pior, as duas continuam a fazer o mesmo - sugar - e por isso conclui-se que em 2006, em Portugal, o contraproducente vem em ração dupla!!!Até quando tanta hipocrisia??? Hipocrisia como a da Carris que, como foi certificada, abandona a sinalética do serviço para fazer promoção do cumprimento das condicionantes a que está obrigada, apesar de ter todos os aparelhos que lhe permitiriam prestar um serviço eficiente. Mas não, só interessam os louros. Os resultados reais não são os que importam, interessa é poder manipular com grandes titulares…
Em Dezembro passado, tivemos a maior Árvore de Natal da Europa na Baixa Pombalina, mas para quê??? Para criar filas intermináveis de carros a gastar petróleo e a contaminar? Melhorou o comércio tradicional na zona? Ou aumentou a afluência do turismo afastado pelas condições péssimas dos hotéis e preços exorbitantes??? Ou foi só uma forma de aumentar o circo diminuindo o pão??? Porque sim, estamos a ouvir o eco do “Pão e Circo” romano!!!
Realmente é incrível como neste país os refrigerantes pagam quase quatro vezes menos IVA que os medicamentos das terapias alternativas!!! Mas existem seres que continuam a desenvolver a teoria da conspiração e afalar de Lobby Gay!!! Deveriam ver além das suas obras de caridade que só servem para pensar-se úteis à sociedade, apesar de só lhes asseguram gastar menos em terapeutas… Serão realmente tão úteis e meritórias a ponto de os dinheiros que deveriam ir para a saúde, a segurança social e a educação serem gastos em promoção de preconceitos ou futilidades??? E já agora, seria educativo que sentissem que as suas relações conjugais não eram aceites, e não tivessem o direito a ver respeitada a sua dor e o seu luto na viuvez. Ou, por exemplo, fossem parar ao hospital e algum familiar impedisse a visita da pessoa com quem estabeleceram a sua socialização afectiva??? Será que querem que aquelas e aqueles que não seguem a norma católica e judaica se sintam – como se sentem - quando sabem que os seus amantes clandestinos estão hospitalizados, sem o direito a apoiá-los nesse momento de carência, nesses momentos fundamentais na solidificação das relações???Mas vamos ser claros. Aqui, o passo atrás tem que ver com uma preocupação, a adopção!!! Minhas senhoras e senhores, realmente a insensatez é descomunal!!! Já se perguntaram quantos casais existem em Portugal em que um dos progenitores tem condutas homossexuais??? Essa seria uma sondagem bem importante para compreender até que ponto somos um país de hipócritas!!! E pelos vistos assim continuaremos para manter essa afamada moral e bons costumes, num país que é motivo de gozo internacional pois dizem que para identificar um homossexual português a primeira pista é que seja casado, claro que com alguém do sexo oposto!!! E esse paradigma está de tal forma enraizado na sociedade portuguesa...
Não sei grande coisa das mulheres que vivem essa situação pois existe o véu que se chama invisibilidade lésbica, mas posso assegurar que perdi a conta dos homens “felizmente” casados que se encontram em casas de banho públicas, ou nalgum sítio de engate homossexual procurando o que não podem ter no leito conjugal! Será então esse o modelo admirável que vamos perpetuar para as futuras gerações???
Não se sentiriam mais pais - com maiúsculas - se em vez de castrarem os filhos compreendessem que eles (e elas) deveriam ter o direito a decidir com quem querem formar uma família para não viverem o mesmo que tem vivido tanta gente? Talvez se tivessem a capacidade de sentir e pensar por si mesmos, sem se deixar afectar pela lavagem de cérebro dos programas animalizantes da TV, ou dos jornais de duvidosa reputação, apoiados pelo queixume desvairado de uma inquisição renovada pelas tecnologias, talvez até pudessem ser coniventes com o esforço para fortalecer os afectos dos seus filhos, oferecendo-lhes possibilidades de serem mais humanos e felizes??? Quantos pais não teriam tido que sentir o suicídio dos seus filhos? E o suicídio pode não ser só o físico, mas também o social, como os escapes da droga, do alcoolismo e tantas outras condutas que destroem o fundamental do ser humano, a sua capacidadede ser ele próprio! Mas voltemos ao assunto, pouco homens e poucomulheres… Ah!!! Então a família é só para os casais heterossexuais, pois podem engendrar filhos entre eles mesmos!!! Portanto, o casamento não é outra coisa senão o direito a ter sexo para ter filhos??? Então todos aqueles que não podem ter filhos não devem ter acesso ao casamento, e muito menos aqueles que não querem ter filhos!!! E vamos ter que pedir uma nova lei para que os casais que não tenham filhos sejam descasados pois não estão a cumprir com as suas obrigações!!!
Para finalizar, peço mais um pouco de exercício mental… o que pode levar a esta situação??? Nos transportes públicos, a palavra de ordem é que se querem casar-se, que vão para Espanha. Será essa a solução para este país, expatriar os homossexuais que não aceitem viver este inferno??? Realmente, essa é a táctica da tolerância do Vaticano, afastar o que não se quer ver ou que se veja. Como não o podes destruir tens que afastá-lo o mais possível e não existe nada melhor que mandar para outro país. Mas recordem que os e as homossexuais são pessoas que têm sido obrigados a lutar desde sempre para terem uma formação e que por isso estão, clandestinos, mas em todas as partes. Que aconteceria se todos e todas os homossexuais emigrassem? E recordemos que a razão das migrações tem sido a procura de melhores condições sociais. Qual seria o caos na saúde, na educação, nas forças armadas, e em todo o resto das funções que nós, homossexuais masculinos e femininos, cumprimos para esta sociedade que se nega a reconhecer dignamente os laços afectivos que estabelecemos como forma de vencer a solidão??? Que aconteceria se cada um e uma de nós se sublevasse e não aceitasse viver nesta servidão de escravos onde só temos direito a servir?!!! Será necessário um Stonewall à portuguesa??? Ou vamos ter que usar coletes de explosivos??? Ou quê???

Júlio Esteves
Observatório Homofobia/Transfobia na Saúde @ Médicos Pela Escolha
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