quinta-feira, julho 07, 2005

Somos tod@s trans

Tem estado a causar reacções contraditórias o último texto da escritora Inês Pedrosa, uma das madrinhas da Marcha do Orgulho LGBT 2005, na revista do Expresso (www.panterasrosa.com/pedrosa)
Tecendo considerações perspicazes sobre os aspectos públicos da Marcha e sobre as reivindicações legais do movimento, sem "afunilar" apenas no tema do casamento, a escritora comenta também a sobreexposição mediática das dragqueens na Marcha, o que provocou de alguns sectores da web gay reacções do género "somos todos/as trans", em defesa da inclusão do T e contra as discriminações internas à comunidade. Estas reacções, devo dizer, agradam-me, porque representam a facção anti-discriminação num antigo debate sobre aquilo a que muitas pessoas chamavam o "folclore" das marchas, com uma carga negativa. Nesse contexto, sim, somos todos e todas trans, e as panteras deverão estar sempre dispostas a ser os/as primeiros/as a levar à prática esta solidariedade com o grupo mais discriminado dentro e fora do universo LGBT. Os discursos sobre o "folclore" sempre me fizeram subir a mostarda ao nariz, porque não entendem a importância da presença T nas marchas, não entendem as questões de género, logo, a ligação das questões trans ao tema da homossexualidade, e atribuem culpa à vertente trans por uma "má imagem" que seria transmitida da comunidade. São claramente discriminatórios.
Num e-mail enviado esta semana ao Fórum Social Português, António Serzedelo comete, parece-me, o mesmo erro de inculpar os "travestis", responsabilizando-os ao mesmo nível que à má prestação dos meios de comunicação social, que é o que realmente está em causa. Diz o António que partilha das posições de Inês Pedrosa, sobretudo "relativamente à cobertura televisiva, e (má)prestaçao do discurso dos travestis, para a nossa luta, no plano em que o exibem". Eu, por acaso, vi na tv uma óptima declaração de um travesti sobre homofobia...
O que me leva a mandar esta "posta" é que julgo que o texto de Inês Pedrosa não comete este erro. Diz ela q (...) as plumas e as pailletes que tanto perturbam o sossego familiar das famílias ditas tradicionais se resumiam, numa marcha de quinhentos seres humanos, a meia dúzia de pessoas. Aproveitam o pretexto para ter os seus cinco minutos de glória e promover os seus shows ." Eis a frase que, fora do contexto, levou a que a escritora fosse acusada de atacar os/as trans presentes na Marcha.
Mas anteriormente no seu texto, Inês já deixou claro que assume a defesa dos/as mesmos/as, quando diz que a Marcha "Incomoda, porque aparecem sempre uns travestis emplumados. As heterossexuais nuas que surgem nos desfiles de carnaval são consideradas espectáculo de família. Porque é que um transexual incomoda tanta gente? A mim, o que me incomoda é que Portugal seja ainda tão pouco exibido, tão cheio de entrementes, bichanices covardes, esquemas ocultos... enfim, estratégias."
Creio que quem reagiu em defesa da população trans deve continuar a fazê-lo tal e qual, porque é preciso. Mas julgo que não é usando esta crónica como pretexto...

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