domingo, março 22, 2009

REINO DAS TREVAS


Data, 22 de Dezembro de 2008. Em mensagem para a Cúria Romana o Papa Ratzinger lembrava os fiéis que homossexuais e pessoas transgénero eram uma ameaça para a humanidade e as suas vidas contrárias às leis da Natureza. Parece que foi há séculos, porque depois disso o mesmo homem já levantou a a suspensão da Igreja dos bispos fascistas e que acham que o holocausto nunca existiu e, mais recentemente, confirmou a excomunhão da equipa médica e da mãe de uma criança de nove anos, que grávida em consequência da violação pelo pai, teve de abortar. Todos excomungados, com a excepção do violador, claro, que para a Igreja católica, era o que tinha praticado o menos mau dos pecados.

Agora, por África, começou por acusar a utilização dos preservativos de “agravarem o problema”. Os 22 milhões de infectados neste continente agradecem-lhe as palavras. O esforço de muita gente, inclusive de católicos, para combater a pandemia, também.

Mas o verdadeiro banho de multidão de Ratzinger foi em Angola, onde um governo autoritário, foi o anfitrião perfeito. Mesmo com as referências piedosas à fome, pobreza e corrupção, o Papa em campanha africana, viu consagrado em Angola, o seu espaço de influência social simultaneamente protegido pelo governo de José Eduardo dos Santos. Naturalmente, uma vez que a promessa do reino dos céus, transforma os crentes em ovelhas perante as misérias do mundo terreno.

A única nota que terá desagradado ao sumo pontífice terá sido a alegria das danças com que os crentes angolanos e dos Camarões o terão recebido. Teria preferido uma recepção mais “contida” que a alegria e a dança são coisas do demónio, pois claro. Como o sexo.

Em Espanha, a Igreja de Ratzinger está em campanha fervorosa contra o aborto. Outdoors com imagem de linces e de crianças. O lince protegido, claro está, enquanto a criança nesta versão integrista, anda à procura de igual protecção.

Por cá, os dignatários que representam a Igreja de S. Pedro, acreditam fervorosamente que o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo é um sinal do fim dos tempos e do apocalipse. Com devoção entregam-se ao combate para que os partidos do centro não caiam na tentação de assim abrir os caminhos da perdição. Falam de gays e lésbicas, como “pessoas dignas de compaixão”, brandem contra as suas famílias e filhos, horrorizam-se com a felicidade “não procriativa”.

Para o PS, que recentemente assumiu o compromisso de uma lei que acabasse com a discriminação no acesso ao casamento, crianças também não. Os menos maus dizem que “a sociedade não está preparada”. Os piores como Mário Soares ou ainda Vital Moreira, que a assumpção destes direitos desvalorizam o partido que tem coisas mais importantes para tratar.

Para quem pensa que o progresso é uma caminho imparável e que nos leva sempre a uma patamar mais elevado de organização social, estes exemplos não são bons argumentos. O reino de Ratzinger, é de trevas e afinal, o PS também também tem demasiados momentos sombrios.


joão carlos

Imagens: slogans do Act Up Paris numa manifestação esta semana na capital francesa em que @s activistas foram agredid@s por militantes integristas católicos.

Observatório Homofobia/Transfobia na Saúde @ Médicos Pela Escolha
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