segunda-feira, fevereiro 27, 2006

MEMÓRIA CURTA

Em Portugal, até o activismo, por vezes tem medo de olhar para a frente.
No dia em que foi descoberto o corpo de Gisberta, as Panteras cumpriram dois anos de vida e intervenção. Só agora dou por isso. Há dois anos, estavam as panteras a constituir-se e a insistir na mediatização da homofobia, e diziam-nos activistas, com preocupação, que não era boa estratégia falar de "homofobia", porque ninguém percebia. "Ninguém", leia-se, a população em geral e os jornalistas. Como se os jornalistas não fossem daqueles profissionais que até podem ajudar a educar a população, e como se o bom jornalismo não fosse aquele que, quando não sabe, procura saber, e vai atrás das coisas, sem admitir preconceito, porque ele tolda a capacidade de análise. Temos pouco desse jornalismo por cá, cada vez menos.
Mas voltando à questão: há dois anos, parece incrível, quando comunicavam para fora, as associações lgbt portuguesas limitavam-se a falar de "discriminação da população lgbt" (curioso, outro termo que há seis ou sete anos ninguém percebia. E não se impôs?)
Nos últimos dias, dizem-nos com insistência que a vítima de assassinato foi uma trans, mas que a motivação foi, (por ignorância dos agressores sobre as diferenças entre uma coisa e outra) "homofóbica". Até talvez seja verdade, mas foi seguramente a transfobia que marcou os media nos dias que se seguiram. Porém, vai daí, dizem-nos também que sobre este crime, mais vale falar de "homofobia", e não de "transfobia", "porque ninguém percebe".
A memória é curta. E como por vezes é terrivelmente subtil a forma como age o preconceito, sobretudo entre nós mesm@s, grupos de discriminad@s/discriminadores/as, que nos encontramos nesta coisa a que chamamos "movimento" e em que continuo a acreditar e a querer ver juntar as forças de tod@s.
O "activismo" não perceberá que mesmo não querendo, mais não está a fazer do que aplicar uma omissão transfóbica? A perder a oportunidade de "fazer perceber", de, com @s trans - e nunca em vez delas/es - tirar da sombra do desrespeito o grupo mais desfavorecido da comunidade, e portanto o que mais dificuldades tem em unir-se e organizar-se? Um grupo que está infelizmente quase sempre fora ou quando muito no limite das margens do "activismo".
A principal e isolada activista trans portuguesa está em vias de emigrar para o estrangeiro, e o "activismo", este de que falamos, ajuda-a a não levar saudades. Ainda bem que depende do activismo trans - e não do lgb - a organização d@s própri@s trans pelos seus direitos. Espero que haja quem preencha o actual vazio. Espero que a presente omissão d@s trans por parte da parte lgb não faça o activismo trans cometer um dia o mesmo erro, isolando-se da luta lgbt. Creio que ao invés de se isolar, ele terá que aqui se impôr - nada lhe será dado. E espero que então esse outro "activismo" faça um esforço maior para ele próprio perceber o que está em causa.

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Observatório Homofobia/Transfobia na Saúde @ Médicos Pela Escolha
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