terça-feira, junho 28, 2005

ROLHA NO CALHAU

Como em anos anteriores, as comemorações do Gay Pride em Lisboa, contaram com um Arraial organizado pela Ilga e patrocinado pelas autoridades camarárias. Espaço de festa e convívio para novos e menos novos, de afirmação e de liberdade sexual, o Arraial começou a fazer-se há vários anos atrás no jardim do Príncipe Real. Dois anos depois deixou os territórios protectores entre Bairro Alto e S. Bento e mudou-se para a Praça do Município, para a calçada renovada e simbólica do poder autárquico da cidade. Com a câmara Santana Lopes, Monsanto e o Parque do Calhau foram o local para onde se remeteu o Arraial da Ilga. Mas há 3 anos o Arraial sobreviveu a esta deportação para as periferias esconsas do Parque de Monsanto e hoje o local e o difícil acesso já não representam qualquer perigo de anonimato.
Como em todos os outros anos, a Ilga convidou bares e associações para marcarem presença e animarem o espaço. Como sempre grande parte dos circuitos LGBT da cidade, activistas associativos e militantes não faltaram à chamada.
Mas ao contrário de todas as anteriores edições do Arraial, este ano a Ilga decidiu que chamava ao palco representantes das Associações presentes apenas para lerem um excerto do manifesto que tinha convocado a Marcha da tarde. Ao contrário dos outros anos onde os representantes das associações presentes diziam livremente ao que vinham e porquê, este ano parece que só o Alexandre Frota é que teve o direito de produzir um discurso próprio, de se auto-promover e de falar do palco sem guião pré-definido pela direcção da Ilga.. Às justificações apressadas do ritmo da coisa ou do pragmatismo de quem acha que para os presentes é absolutamente irrelevante ouvir a variedade dos discursos e linguagens das várias associações e activismos, só posso responder com a convicção de que estão muito enganados. Para mais quando da discussão do Manifesto comum resultaram divergências, diferenças de interpretação sobre as prioridades e de opinião entre as quatro associações convocantes, como aliás é natural e saudável que aconteça. Esconder essas divergências usando uma rolha não é uma técnica recomendável.
Lembro uma primeira comemoração pública do 28 de Junho em Lisboa, decorria o ano de 1992. A discoteca Clímax na Estefânia, abria as portas ao GTH/PSR para a organização da estreia do Gay Pride na cidade. Nessa noite, entre outros artistas e pessoas que quiseram não só estar presentes como também participar com as suas palavras ou artes, o Al Berto subiu o lance de escadas que servia de palco e declamou a sua poesia. Na magia daquela noite inaugural, o poeta fez parte, as suas palavras reforçaram o sentimento da comunidade em estreia e desafio.
Hoje a Ilga teria, provavelmente, achado que poesia não tinha lugar nas comemorações da modernidade, ou então que seria melhor escolher criteriosamente as palavras ao poeta, ou até mesmo escrevê-las por ele.
O que se passou no Parque do Calhau foi um episódio infeliz que não apaga o mérito e o esforço da Ilga, mas que nos deve servir para reflectir sobre a frágil natureza das relações que estabelecemos dentro deste movimento/comunidade e da cultura democrática que teremos todos e todas de construir.
Observatório Homofobia/Transfobia na Saúde @ Médicos Pela Escolha
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