sábado, abril 20, 2013

O Coquetel dos Dias Seguintes

por Maycon Lopes, em abril 17, 2013

No dia 10 de dezembro de 2012 eu aceitei um desafio. Aliás, assim falando, soa como se se tratasse de uma atitude bastante corajosa, como se não houvesse nela um quê qualquer de entreguismo. O que quero dizer é que seria ingênuo pensar que eu agi de modo puramente voluntarista, como se também, ou principalmente, eu não tivesse sido impelido a. E, claro, tenha acatado esse “empurrão” social. É porque haveria também tanto ou mais coragem no outro pólo, no “desleixo”: deixar-se seguir sem passar por isso. Mas no fundo eu sabia que – e até agora tem se confirmado -, tratava-se de um momento-chave: eu me submeteria ao tal tratamento para, decisivamente, não voltar a incorrer no risco.

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Tudo começou quando… Não. Na verdade o início disso tudo remete à instauração nas subjetividades gays do risco de contração do HIV. Mas não discorrerei sobre isso agora, inclusive já o fiz anteriormente, em texto igualmente auto-etnográfico. Como não implicar-se ao tratar desse tema? Ou como não debruçar-se sociologicamente na sua própria, e tantas vezes tortuosa, experiência? Seja como for, nós, antropólogos, pro bem e pro mal, sempre temos o pretexto de fazer uma etnografia. E foi também com esse interesse de falar em primeira pessoa, de produzir sobre o meu estado, que decidi submeter-me à profilaxia. Vou explicar.
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No dia 8 de dezembro, uma noite de sábado, eu fiz o meu sonho de consumo. Um dos, é claro – haverão sempre aqueles que nunca faremos. Então você pode imaginar aquele cara, menino do Rio, corpo feito de areia e mar, que de repente, sabe Deus como, aparece na sua cama. Daí você me pergunta: “mas você não tinha preservativo?”. Tinha, sim, e tinha aos montes, sobretudo dessas de posto de saúde que a gente vai estocando. A epidemiologia pode até confirmar o uso de psicoativos como preditor de relação sexual desprotegida. Foi na chapa, como se diz por aí.
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Como tudo o mais só se mede depois do prazer, o meu sufoco começou ali. Não me venham com essa de que a aids é uma “doença democrática”, como ouvi certa feita numa apresentação de trabalho acadêmico. Por mais importante que seja frisarmos que a aids potencialmente atinge a todos/as, não podemos, por conta disso, obscurecer o fato de que alguns grupos são mais vulneráveis à infecção pelo HIV. Segundo dados do Ministério da Saúde, enquanto a taxa de prevalência de HIV para a população geral entre 15 e 49 anos é de 0,6% (e de 0,8% entre os homens), esse número sobe para 10,5% quando tratamos da população de HsH (homens que fazem sexo com homens). Desses dados podemos concluir quão democrática é a aids.
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Estou apresentando tais resultados pois estes foram preponderantes para decidir submeter-me à profilaxia, que muito em breve explicarei o que é. Vale ainda ressaltar o meu conhecimento acerca do risco de infecção, que, dentre as possíveis práticas, é o maior, no sexo anal receptivo. Como relato também em trabalho anterior, é comum que, após a exposição, iniciemos uma série de especulações para pensarmos na probabilidade, quase nunca efetivamente verificável, do seu parcerio ser positivo. Acionamos nesse momento uma série de preconceitos e estereótipos para constatações precárias, os quais prefiro aqui abster-me de confessar, para preservar não só a mim como a identidade do jovem com quem estive, que faz muito bem a linha que curte a página “Clube Hétero” no facebook.
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Quis pontuar apenas as motivações que me levaram aceder ao tratamento: avaliar o estilo de vida do meu parceiro sexual, mas, principalmente, pensar a mim e ao meu parceiro como sujeitos vulneráveis ao contágio de HIV. Em verdade, foi só na noite do dia 8 de dezembro que ouvi falar pela primeira vez em profilaxia – através de um amigo, que, assim como eu, se interessa imenso pela temática da aids. Até então, eu sabia apenas que deveria aguardar os três meses; quando, diz-se, é possível diagnosticar com mais certeza o HIV num exame de sangue.
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A profilaxia, que atende pela singela sigla de PEP (Profilaxia Pós-Exposição), é um tratamento preventivo, que não garante eficácia, e que deve ser iniciado até 72 horas após a exposição ao vírus. Quanto antes, melhor (recomenda-se que seja nas duas primeiras horas, ou, ao menos, nas primeiras 24 horas). Beleza. Agora pesquisa no google “profilaxia HIV Salvador” e você não terá qualquer informação acerca de onde pode ser feita. Mas aqui vou te dizer aqui: CEDAP, Hospital das Clínicas e Hospital Couto Maia. Acontece que o dia seguinte era um domingo, onde imaginei que o CEDAP estaria fechado. Como não obtive uma informação que deveria estar disponível on-line, precisei aguardar até a segunda-feira, embora pudesse (mas no momento não imaginei, até por se tratar de temática tão marginal) ligar para qualquer unidade de saúde em busca dessa informação.
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Na verdade a profilaxia já é um tratamento amplamente adotado entre vítimas de estupro e profissionais de saúde que se acidentam ocupacionalmente, mas a regulamentação prevê que esta seja disponibilizada pelo SUS para qualquer pessoa que possa ter se exposto ao vírus. Desde 2011 ela é oferecida, mas, até o momento – e isso pude notar quando contava aos amigos a respeito (da novidade) do tratamento -, quase ninguém sabe da sua existência e aqui questiono a razão do desinteresse do governo em divulgar um serviço por este oferecido. Embora alguns profissionais de saúde defendam que as pessoas passariam então a repetir a profilaxia – o que não é recomendável -, defendo que a profilaxia possa representar um passo definitivo na prevenção ao HIV. Eu, por exemplo, que tive terríveis efeitos colaterais com os medicamentos (muito sono, uma fome absurda, gases, diarreia, etc), acho muito difícil praticar novamente uma relação sexual desprotegida. Embora uma semana antes eu tenha realizado o teste rápido (o qual no Brasil, ao contrário de países como Portugal, ainda não é disponibilizado para toda a população – o que é um absurdo!) e participado das ações do dia primeiro de dezembro, dia internacional de combate a aids, precisei, para definitivamente fechar a minha janela, submeter-me a esse tratamento.
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Fui atendido no Hospital Couto Maia, e três meses após a conclusão do tratamento realizei o exame no CEDAP, recebendo o resultado com uma imensa vontade de gritar ali mesmo: Tô limpaaaa! Julgando que seria importante gerar dados para o Ministério da Saúde, até para avaliação e formulação de políticas, liguei para o Hospital Couto Maia, expliquei a situação: (pois eu deveria ter retornado àquele hospital, onde fui primeiramente atendido) que fui ao CEDAP, realizei o exame, que deu negativo, e o que ouço do outro lado da linha é um “Graças a Deus”. Apenas isso. Em momento nenhum houve interesse de saber o meu nome, a data ou o número do meu atendimento, para computar o dado e dar qualquer retorno ao Ministério da Saúde. Quer dizer, aliada à pouca disponibilização de informação, um total descaso (em parte, mas somente em parte, também de minha responsabilidade) com a avaliação da eficácia do tratamento oferecido.
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Para além disso, quando estive no CEDAP à procura do tratamento fui desmotivado pela assistente social a aceder ao mesmo, simplesmente por desconhecer o estatuto sorológico do meu parceiro, ainda que eu faça parte de um grupo em que a taxa de prevalência de HIV seja dez vezes maior que o restante da população – contrariando o protocolo do próprio Ministério da Saúde, conforme pode ser verificado na tabela abaixo.
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Ainda neste dia, após tentativas fracassadas de falar com o meu sonho de consumo por telefone, mais tarde foi que resolvi, quase 48 horas depois, incentivado por amigos, a iniciar o sofrido tratamento. Eu parecia já estar situado numa verdadeira contagem regressiva: “corra, pois você já perdeu muito tempo”. Embora as pílulas componham o que ficou conhecido como “o coquetel do dia seguinte”, na verdade é o coquetel dos dias seguintes, quer dizer, do mês seguinte, porque consiste em 28 dias, 56 doses, o que equivale a um total de 168 comprimidos maiores que de Tylenol. Uma bomba dentro do organismo. Uma alegria a cada recipiente que se esvai. Como o título de um ensaio do escritor, sociólogo e ativista Herbert Daniel, muito embora em condições históricas e de saúde extremamente divergentes da minha, “o primeiro AZT a gente nunca esquece”. Enfim, definitivamente, o seu sonho de consumo não merece um anti-retroviral que seja, enquanto que a nossa vida é inestimável.
Observatório Homofobia/Transfobia na Saúde @ Médicos Pela Escolha
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