segunda-feira, novembro 16, 2009

Discriminação e conservadorismo

Nos últimos dias, cruzaram-se duas notícias do mesmo género nos mesmos noticiários. Como a maior parte deles tem um pano de fundo conservador, apesar de alguns laivos de modernidade-espectáculo, estas notícias não se conseguiram casar.
Uma delas dizia que os portugueses reconhecem a discriminação sobre a orientação sexual como a mais disseminada no país. Segundo um inquérito revelado pela União Europeia 58% dos portugueses consideram comum a discriminação a partir da orientação sexual.
A outra acentuava a tese da hierarquia da Igreja Católica de que existe uma batalha contra a família que une perigosas feministas com libertinos homossexuais. Pela boca do seu porta-voz, o Arcebispo de Braga, a Conferência Episcopal da Igreja Católica, depois de ter referido males sociais profundos como a pobreza, passou a outro tipo de males e criticou tanto a equiparação das uniões homossexuais ao estatuto de família, quanto a possibilidade de educação sexual nas escolas, não tendo escapado à crítica o feminismo que quer, pecado dos pecados, "redefinir a família, a procriação e a emancipação da mulher" e que é acusado de mobilizar para a competição entre sexos. Velha acusação caricatural que funciona sempre.
O problema desta tese é que fica a meio caminho da união de facto terrorista contra o casamento e um casamento conspirativo de interesses entre pessoas que defendem ideias opostas segundo o próprio Episcopado: uns acentuando as diferenças de género através de uma suposta superioridade de um dos lados (feministas) e outros procurando esbatê-las (homossexuais) propondo "a uniformidade de todos os indivíduos como se fossem sexualmente indiferenciados com a consequência inevitável de considerar os comportamentos e orientações sexuais equivalentes".
A chave da coerência do discurso talvez esteja na ideia de que por mais que promovam a diferença, o que as feministas realmente querem é ocupam o lugar que é dos homens. Qualquer defesa da diferença poderia ser reconduzida a apenas inveja de pénis, como poderia dizer o ousado e iconoclasta doutor Freud. No não dito desta ideia estaria um casamento de preconceitos: ou a feminista ressabiada que odeia os homens em nome da superioridade do género feminino ou a feminista que no fundo queria ser um homem.
Ou talvez, mais simplesmente, seja indiferente, do ponto de vista conservador se se quer esbater as diferenças entre géneros ou se se quer acentuá-las: o importante é que são modos de ataque a um certo tipo de estatuto actual (ou melhor tradicional) destas diferenças que deveria ser eterno e do qual qualquer desvio constitui pecado. E nisto feministas e activistas dos direitos homossexuais seriam do mesmo género.
Efectivamente, mais interessante do que a lógica interna deste discurso interessa pensar em qual o seu papel no país das reconhecidas discriminações com base na orientação sexual. Não que devamos nós casar de forma selvagem conservadorismo e discriminação. Há conservadorismos tolerantes. Mas o conservadorismo serve tantas vezes para alimentar e justificar a discriminação que talvez não ficasse mal a quem elenca os males sociais lembrar-se que cada vez mais pessoas colocam a discriminação com base no género no rol das suas preocupações ao mesmo tempo que as discriminações permanecem um traço da sociedade portuguesa desmentido na prática a visão de um país liberal.

Carlos Carujo
Observatório Homofobia/Transfobia na Saúde @ Médicos Pela Escolha
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