sexta-feira, outubro 20, 2006

Debaixo das saias

Não sei se repararam, mas há umas semanas atrás o Vaticano decretou o fim oficial do Limbo. Numa prova de indiscutível confiança no Criador, a cúpula da hierarquia católica comunicou ao mundo que afinal o Limbo não existia e que afinal as almas inocentes que o habitaram ficavam antes “nas mãos de Deus”. Até então, esse era o lugar - nem paraíso, nem inferno, nem purgatório - para onde iam as almas que não tendo tido a oportunidade do baptismo, não acumulavam pecados mortais. Alegrem-se os crentes procriadores que se a fé for consistente não vale a pena a pressa de baptizar recém-nascido, afastada que está a hipótese de uma permanência forçada no pantanoso Limbo com que todas as crianças eram ameaçadas.
Por outro lado, esclarece o Vaticano, a entrada no Paraíso também não pode ser pois essa é reservada para quem parte em paz com os regulamentos em vigor da Santa Sé. Deus decidirá no seu alto e certamente misericordioso critério. Como decidirá o que fazer das almas que se arrastavam no Limbo, de todos os que morreram antes de Cristo e antes da invenção do baptismo. Ora aqui está uma decisão com justos retroactivos para os milhões de almas que esperavam uma solução para o seu problema desde o início dos tempos até há dois mil anos atrás.
Estas reformas na Igreja de Ratzinger não são porém sinal de qualquer amolecimento doutrinário ou modernidades na oficial visão católica do mundo. O Papa académico e incompreendido não se rendeu nem pediu desculpa com a confusão, a propósito das suas palavras, no mundo islâmico. No discurso da polémica em que citando o imperador Paleontólogo terá ofendido os seguidores do Profeta, Bento XIV manteve-se firme e nada de pedir desculpas a quem quer que seja. Faltava-nos um Papa que pusesse achas na fogueira do confronto com o islamismo – ou como diria J.W.Bush do “terrorismo do eixo do mal”.
Noutra dependência do Vaticano, Ratzinguer e os seus acólitos dirigem uma cruzada contra Darwin. Uma teoria que permite à humanidade duvidar dos sete dias de criação (ou seis, nunca sei? o do descanso também conta?) executada pelo Todo Poderoso, Omnipresente e Omnipotente não poderia deixar indiferente o Papa Bento. As evidências da evolução natural das espécies, o conhecimento científico como ele hoje existe nos campos da biologia, geologia ou da física quântica, são os alvos para Ratzinguer. Ao ponto de investir sobre os programas da escola pública e exigir que o criacionismo seja matéria dos programas oficiais e seja leccionado a par e em condições de igualdade com a teoria de evolução das espécies. O aliado Jorge W. dá um empurrão e os Estados Unidos correm o risco de começar a ensinar a fé católica como se de uma verdade científica se tratasse.
Por cá o fim do Limbo dá um jeitão à conversa anti-escolha a propósito do aborto. Agora os fetos já não têm um bilhete incontornável e directo para este local desagradável do Além, o que não deixa de ser curioso se pensarmos que até agora tiveram. Ou seja, até ao mês passado, a vida dos fetos que tão acaloradamente defendiam, era remetida para um Limbo onde vegetariam pela eternidade.
Agradeçam a Ratzinguer, atento, sempre atento!
Observatório Homofobia/Transfobia na Saúde @ Médicos Pela Escolha
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